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Anotação cinco

No quadro da Fotografia penso os géneros como categorização primordial que obedece por sua vez a uma diferenciação entre o natural e o social. A paisagem enquanto discurso fotográfico, tem na pintura a génese do seu manual de orientação estético, numa representação ao encontro do pitoresco e do sublime. No tempo presente, o discurso deste género busca as significações sociais, políticas, económicas e ideológicas que a pós-modernidade trouxe à discussão artística.

Postal. Canadá. s/data. s/autor

Experienciamos como postal visual o mundo dos não-lugares, do tecido urbano repleto de conflitos mas partilhamos interiormente um ideal de representação que nunca vivemos em primeira mão ou que está quase erradicado do mundo real. Embora desconfie dos não-lugares enquanto modelo obrigatório da fotografia documental contemporânea, interessa-me o conceito desenvolvido pelo antropólogo Marc Augé no sentido em que fala da realidade pública desenhada e implementada nos últimos quarenta anos. O não-lugar enquanto nova configuração social, espaço de passagem e de ninguém. Um espaço não-relacional, não-identitário e não-histórico, por oposição ao espaço antropológico, criador de identidade e de relações interpessoais.

Três linhas configuram-se no espaço maior que é a periferia. A paisagem construída e definida pelos prédios. Um natural, nem desenhado em paisagem – jardim nem vivo em paisagem – natureza, mas construindo um terceiro híbrido: a paisagem- verde- betão. E o espaço construído pela vivência humana do quotidiano. Se a cidade comporta já as regras e limites da utilização humana, na periferia este espaço está em aberto e é construído quotidianamente pelo homem. Dando corpo às palavras de David Bate, quando afirma que a fotografia no contexto da paisagem introduziu um novo ideal, uma visão não-estética, afastada dos conceitos de pitoresco e de sublime e que procura outras significações, sociais, políticas, económicas, ideológicas e sim, pessoais.

s/data © Roger Fenton

Num primeiro pensamento empírico sobre a paisagem tornada imagem, surgem elementos do discurso clássico: uma composição equilibrada, a simetria entre o céu e a terra, a importância da linha do horizonte a partir da qual é possível definir um espaço terrestre e as linhas de força que definem a paisagem. Neste domínio é essencial a concepção de jardim público de grelha geométrica, a partir de um ideal literário greco-romano do éden, desenvolvido particularmente a partir do século XVIII em França e Inglaterra (ver ).

O Pitoresco. Noção referenciada a partir do século XVIII e aplicada a um quadro da natureza ou uma vista considerada digna de ser representada em pintura, tornando-se portanto uma cena pitoresca. Conceito que será depois transposto para a fotografia: “ Aquela cena tem qualquer coisa que remete para a pintura e portanto vai ser correctamente transposta numa imagem fotográfica!”

O Sublime. Aplicado à estética, referencia algo que nos assusta mas que é passível de ser contido através da criação artística; o medo balizado pela estética. Por último, a ideia do Belo presente no nosso ideal de paisagem fotográfica e evidência de um ideal pictórico de paisagem. Muitas vezes associando-se o belo à ideia de simetria, de ordem.

“Valley of the Shadow of Death”. Guerra da Crimeia. 1855 © Roger Fenton

Roger Fenton. Contratado pelo governo inglês para fotografar a “Guerra da Crimeia”, conflito que opunha por um lado a Rússia e por outro lado a Inglaterra, a França e o Império Otomano, será a primeira vez que a visualização de fotografias de um conflito bélico acontecerá em contexto de imprensa escrita e será optada uma contenção em termos de edição fotográfica de forma a não contemplar cadáveres, porque tal visualização seria contrária ao intuito da missão fotográfica de apoio ao esforço de guerra. Não sendo possível mostrar os corpos, é necessário encontrar uma forma de comunicar visualmente a desolação da guerra e a paisagem surge como o espaço visual para este discurso bélico. Um enquadramento clássico: um terço para o céu, dois terços para a terra, a definição da linha do horizonte, os pontos de fuga de entrada lateral a construírem a grelha de leitura da imagem. Vazio, deserto.

“Deserto Sand Hills Nevada”. 1867 © Timothy O’ Sullivan

Timothy O’Sullivan. A paisagem no âmbito da Fotografia vai servir como instrumento científico de mapeamento terrestre, funcionando a presença humana como elemento atribuidor da noção de escala. Imagens representativas dum ideal de paisagem em termos de composição clássica e simbólica da conquista do oeste pelos pioneiros, ponto inicial na tradição da fotografia de paisagem norte-americana. Nação recentemente unificada, a fotografia vai servir como ilustração do país (E.U.A.) e dos seus grandes espaços naturais sendo a magnitude da sua natureza e a fotografia, objectos para demonstração e incremento dos valores patrióticos.

“Clearing Winter Storm”. (c. 1937) © Ansel Adams

Ansel Adams. Figura essencial da fotografia de paisagem de carácter clássico, imagens encimadas por céus cheios de textura, com grande amplitude de escalas geográficas. Adams desenvolveu o Sistema de zonas, praxis técnico-fotográfica que pretendeu estabelecer a correspondência entre as várias fases do ato fotográfico – a exposição, a revelação e a impressão – contida na premissa de que é possível transformar a realidade numa escala de tons, do branco ao preto absoluto. Escala de tons passível de verificação em todas as imagens de Ansel Adams. Este autor integrou o transcendentalismo visual que podemos considerar um movimento visual de cariz proto-ecologista, de carácter místico- naturalista, adereçando a forma como o ser humano deveria pensar o natural. E será igualmente essencial na formação do grupo formalista f64, que validava uma corrente técnica no seio da fotografia. Paradigma que será central na Fotografia do século XX.

Porto. 1912. © Fotografia Beleza

Fotografia Beleza. Um céu quase sem leitura tonal, no que parece ser uma imagem de trabalho para análise estrutural e definição arquitectural. Exemplificação da abordagem formalista, que constituirá o modelo contemporâneo da fotografia de paisagem a partir da década de setenta do século XX na Europa. Um encadeamento inevitável para a obra de Bernd and Hilla Becher. Membros do movimento New Topographics e criadores da Escola de Fotografia de Düsseldorf trazem de forma expressiva para a fotografia as tipologias da ciência. Num sistemático e serial levantamento das estruturas pós-industriais alemães, todos os elementos presentes nas imagens –  a colocação da estrutura industrial no mesmo espaço central da imagem, o espaço que o céu ocupa, a falta de informação tonal no céu –  contribuem para essa pretendida racionalização da imagem.

“Twin water tower”. 1966-1999 © Bernd and Hilla Becher

São minimizadas todas as ponderações estéticas passíveis de avaliação subjectiva em que o espectador se pode perder, a paisagem fotográfica não serve para alimento imediato do gosto estético popular. Enquadrável no paradigma denominado pós-modernidade e que no caso da Fotografia expressa a ideia de que para se compreender uma imagem é necessário alargar o espectro do entendimento a todas as motivações sociológicas, políticas e económicas inerentes a todas as fases de produção e exibição da imagem.

 

“Uma Cidade Assim”. Matosinhos. 1996 © Augusto Alves da Silva

Augusto Alves da Silva. Acompanhando o conceito de não-lugar do filósofo Marc Augé, que define a importância no contexto da pós-modernidade de um conjunto de espaços de clivagem face à tradição antropológica. Sem identidade, sem passado, sem relação. Espaços de nada e de ninguém, para lá da Àgora e do espaço privado, discurso sociológico sobre o natural mas não relacionado com os nossos ideais pictóricos.

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“Mar das Caraíbas”. 1999 © Hiroshi Sugimoto

Hiroshi Sugimoto. Estabelecendo um diálogo com alguns estereótipos da fotografia formalista e humanista aplicados ao género da paisagem, com este trabalho Sugimoto alude a um clássico da paisagem: a representação do mar que engloba o céu e o horizonte. Muitas vezes na acção fotográfica empírica consideramos que na realização de imagens de paisagens conseguiremos apontar a singularidade do espaço e da nossa presença. A partir desse conceito Sugimoto aborda um conjunto de mares representativos da diversidade planetária, tal como um compêndio geográfico, com a mesma estrutura formal, céu e mar a ocuparem de forma equalitária o enquadramento. Em horários equivalentes, com luminosidades aproximadas, apontando para o facto de que a singularidade pode ser encontrada não nos espaços, mas nas opções formais e técnicas do fotógrafo que fazem desaparecer toda a especificidade do local. Recentrando a importância da subjectividade do olhar, num momento que parecia definido por uma Fotografia objectiva e serial.

“The City”. 2001. © Mitch Epstein

Mitch Epstein. Trouxe para a representação visual a questão da meta-linguagem. O tornar visível dos mecanismos que permitem a existência da imagem; Walter Benjamin e a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica em todas as fases da produção da imagem e a semiótica de Roland Barthes. Uma forma de poesia visual em torno da banalidade do quotidiano. Na imagem é a câmara em primeiro plano que assume o papel de observador que olha a cidade, que nos olha a nós, o aglomerado urbano envolvido pela neblina pitoresca. Se nas imagens de Ansel Adams a paisagem pitoresca era uma construção individual de um autor, na obra de Epstein a paisagem ideal existe no tempo presente apenas como registo distante. A partir dos anos 50 do século XX uma certa ideia de paisagem foi instrumentalizada pelo turismo e alimentada pelo postal (ver a tradição do Gran Tour, século XVIII a XIX) objecto gráfico que fez e faz a transposição visual do discurso de paisagem pitoresco e clássico. E aqui chegamos a um ponto de viragem na representação deste género: quantos espaços geográficos conhecemos pela experiência física e quantos conhecemos de forma virtual, pelas suas representações que substituíram o real?

“Arkadia”. 1997/99 © John Goto

Um elemento que tem sido aprofundado pela Fotografia inglesa contemporâneo é o diálogo entre o ideal de paisagem e a paisagem real.   John Goto através da manipulação digital, traz o pictórico de volta à fotografia. A organização espacial dos elementos, a escala dos mesmos, a simetria do natural e a escala humana são as correctas em movimentação quotidiana, mas as imagens possuem algum tipo de desfasamento face ao real, parecendo ao mesmo tempo verosímeis. Materializando as concepções clássicas de jardim, de espaço natural.

“The Last Resort”. New Brighton, Inglaterra. 1983-85 © Martin Parr

Martin Parr adereça a evolução da paisagem e do turismo e esta imagem parece simbolizar o facto de que a paisagem existe hoje apenas enquanto memória! Apesar de na prática experienciarmos paisagens cheias de conflitos, partilhamos interiormente um ideal de paisagem que ou nunca vivemos em primeira mão ou já não existe na realidade e que nos conduz a habitar os espaços reais pensando-nos residentes de cenários idílicos.

Referência final, nesta pequena crónica sobre a paisagem no âmbito da fotografia, a Gonçalo Ribeiro Telles cuja obra escrita é tão difícil de encontrar arquicteto paisagista e ecologista e a dois geógrafos portugueses. Orlando Ribeiro cuja obra múltipla tenho vindo lentamente a descobrir e Álvaro Domingos cujo pensamento acompanho desde o livro “A rua da estrada: o problema é fazê-los parar!” (2009).  E a partir das suas obras, alargar o campo de análise e pensar: o que irão reflectir os novos discursos fotográficos em termos de planeamento territorial, políticas agrícolas e pensamento social ?

 

Porto. Abril 2020.

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