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Anotação dez

Anotação dez

Ao meu pai Maciel.

 

Teatro do Ego a significação da personalidade

 

Este texto começa pela vontade de falar do personagem Miss Beige e da sua abordagem à auto-representação.

O auto-retrato permite um diálogo entre o modo como me vejo a mim, ao outro e ao mundo e virar o foco para dentro é muitas vezes um desafio por representar reflexão, tomada de consciência e porventura mudança de acção em consonância com o anteriormente concluído.

The great escape. © Miss Beige. Fotografia: Marisa Gallego

O retrato fotográfico na dualidade que abrange entre um signo que descreve e caracteriza um indivíduo inscrevendo-o também numa identidade social e colectiva, contribuiu para o mapear do rosto humano na sua complexidade biológica, étnica e cultural. E essa cartografia demonstrou diversas dimensões do conhecimento humano: a científica nas suas abordagens sociológica e antropológica; a política, enquanto ferramenta de validação ou meio criativo de expressão ideológica e finalmente a dimensão estética e filosófica, nas suas diversas interpretações do que nos é comum, o rosto.

Na construção da linguagem do retrato têm sido utilizadas múltiplas configurações: inicialmente espelho da realidade; depois adoptando classificações alheias na busca da sua identidade artística; em seguida defendendo-se numa verdade intrínseca e indivisível e posteriormente por conexão a outras esferas de conhecimento e criação.

Penso a imagem fotográfica como representante de dois pólos aparentemente distintos e potencialmente antagónicos: a produção e fruição quotidiana e por isso, comum e massificável e por outro lado enquanto linguagem elaborada e específica!

Os dispositivos formais à disposição da auto-representação são profusos em termos de codificação de semelhança face ao real: alguns criadores ao olharem para si próprios observam o reflexo, falando da sua identidade; outros através de si abordam a alteridade e alguns criadores, utilizando os seus corpos e rostos como artifício da performance comunicam um todo mais global e universal.

No âmbito do auto-retrato, encontro formulações multíplices sobre personalidade e ego, estando cada vez mais desligadas no presente digital, as figuras reais (pessoas) das suas representações. No espaço em que Narciso impera como figura fundadora, questiono de que forma no contemporâneo digital é gerida a partilha da intimidade, que por força da contínua exibição pública perde a sua natureza primeira- privada- transformando-se numa expressão na qual o marketing digital pode assumir um papel central, não esquecendo a sinalização da passagem inexorável do tempo!

Segundo Laura Gonzáles Flores logo numa fase historicamente inicial, traçaram-se no âmbito da Fotografia três linhas de acção distintas: uma assente no carácter técnico e de mimesis e que permitia uma reprodução fiel da realidade; outra linha que adoptou a linguagem (géneros e estilos) da pintura, procurando criar afirmações artísticas e uma terceira linha caracterizada pela procura de uma essência fotográfica, da qual a experimentação de Hippolyte Bayard Auto-retrato de um homem afogado de 1840 é um exemplo.

Para este texto concentro-me nessa terceira linha que Flores desenhou.

Tendo como ponto inicial a imagem de Bayard que me remete sempre para a obra A morte de Marat de Jacques-Louis David de 1793, encaminho-me para os anos 70 do século XX e para a performance que encontra na Fotografia uma aliada particularmente eficaz.

Numa primeira fase uma aliada na preservação para a posteridade de uma expressão artística efémera e numa segunda fase, enquanto matéria constitutiva do próprio ato artístico.

Orlan, artista francesa oriunda duma prática conceptual na área da performance, traçou com a fotografia o caminho acima descrito, até adoptar o auto-retrato fotográfico como elemento do seu discurso de codificação e descodificação de um real colectivo: os códigos de beleza que caracterizaram a Mulher em várias culturas, ao longo de vários momentos históricos.

De seguida a obra de Cindy Sherman, inscrita no que apelidarei alteridade o outro também sou eu e o trabalhar das premissas de uma prática ligada ao pós-modernismo fotográfico: não é o que lá está, mas sim aquilo que é indiciado! O para onde nos remete! O discurso do semiótico e da referência, que Philippe Dubois apontava.

Glovolización. ©Miss Beige

E estas três referências conduzem-me a Miss Beige, a artista que escolhi, ou como qualquer mimado do mundo contemporâneo afirma, a artista que quero hoje analisar!

Filha da experiência de auto-representação cénica de Hippolyte Bayard, continuadora da performance centrada na teatralização dos diversos personagens-estereótipos de beleza feminina que Orlan tem vindo a explorar, abarcando a necessidade de descodificação referencial em torno do feminino que Cindy Sherman propôs.

As primeiras imagens que conheço de Miss Beige, algures a meio deste ano, revelam-me um personagem feminino vestido de bege, relativamente anónimo e formal.

Cor associada ao cerimonial da realeza, o bege simboliza um certo tipo de elegância em particular nos anos 80 e 90 do século XX – com o natural retorno no tempo presente em certos nichos – cor de um certo temperamento brando.

Uma espécie de cinzento ideológico, na sua não-afirmação de opinião contrária a um manual de etiqueta ou conduta social!

Interessa-me a construção estética da personagem Miss Beige e as significações que agrega em termos de identidade.

As acções da personagem, ao distanciarem-na de um cenário de protocolo social, aproximam Miss Beige do que considero um activismo pré – redes sociais. Activismo esse, interveniente na denúncia de um “estado de coisas” sociais, políticas e económicas, sem alinhamento às agendas mediáticas digitais e aos ditames dos departamentos de ciências sociais.

O humor e a ironia são elementos construtores desta personagem, sendo as suas intervenções – performance – fotográficas em torno da plataforma Glovo disso um extraordinário exemplo.

Imagens que me remetem para um questionamento “pescadinha de rabo na boca”, em torno do facto de que uma parte das empresas responsáveis pela uberização da sociedade contemporânea e consequente traçar dos fossos económico-sociais actuais, são elas também parte integrante do quotidiano dos cidadãos conscientes do mundo digital.

Gana fama y echate a la cama.© Miss Beige

 

Considerei que o melhor e único caminho para o entendimento da obra era o diálogo com a artista. Ver as suas imagens e ler o que diz sobre o seu trabalho.

P- Como surge o personagem Miss Beige? Sendo a Ana Esmith atriz, esta personagem veio na sequência de algum trabalho anterior ou decorre dos seus questionamentos sobre os cânones que condicionam a beleza feminina?

Yo vengo de las artes escénicas y, por lo tanto, de la creación e interpretación de personajes. Pero cuando surge Miss Beige descoloca todo lo aprendido hasta el momento porque por primera vez en mi trayectoria la potencia de la imagen me obliga a prescindir de la voz. Al tratarse de una exploración en un trabajo no verbal, comienzo a investigar a través de la performance, el vídeo y la fotografía. Para humanizarla, decido salir a la calle, el espacio público por excelencia, para poder interactuar con las miradas y las reacciones ajenas. Surge como una heroína del siglo XXI, sin capa ni mallas ajustadas porque sabe que su vestido, cinturón, zapatos, bolso y guantes de color beige –aparte un martillo que sobresale del bolso– pueden destruir toda la vanidad que le rodea. La presencia de Miss Beige, ya sea en foto o en una performance, cuestiona los estereotipos establecidos que han influido en quien queremos ser y cómo queremos mostrarnos o, mejor dicho, quién quieren que seamos y cómo quieren que nos mostremos. Miss Beige a la que bautizo como el «antiselfie», reivindica esa mujer mal llamada «normal». Esa mujer que no es dependiente del hombre, que no tiene por qué ser madre, que no responde a unos cánones sociales preestablecidos y que, por supuesto, está harta de ser vista como un mero objeto sexual

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P- Na tradição da performance, na qual a fotografia é um elemento essencial para o tornar permanente do ato efémero, que papel tem a fotografia na acção artística Miss Beige? E como são delineadas as parcerias com os fotógrafos com que colabora (María Dain, Iván Pinilla ou Marisa Gallego)?

Generalmente trabajo con fotógrafas/amigas donde la amistad prima por encima de todo. Necesito esa conexión/confianza con la persona detrás del objetivo para que no exista ningún filtro que me distancie del espectador. El aquí y ahora de lo yo quiero comunicar prima sobre la mirada del fotógrafo o los artificios técnicos.

P- Todas as intervenções fotográficas Miss Beige, são caracterizadas por uma opinião- análise face à sociedade contemporânea, para lá de um quadro politicamente correcto. Como vê o papel da arte no questionamento da sociedade, pensando a política (no sentido lato do termo não no sentido partidário) e a economia? 

Creo que el artista tiene una responsabilidad social y debe involucrarse con el momento que le toca vivir. Se ha creado un público para consumir y olvidar lo que consume así que para mí provocar cambios es la mayor función del arte. Entiendo el arte como un instrumento definitivo para el pensamiento crítico. Los límites los pondrá el espectador y las reflexiones también pero ya es hora de respetar al público y de ponerle si así lo desea en una situación que no sepa controlar. El mirón también tendrá que jugar y arriesgar. Hay muchas maneras de jugar y Miss Beige con su presencia coloca al espectador en una posición de sorpresa sin escapatoria.

P- Citando Emma Trinidad, no seu trabalho existe uma “provocativa construcción de la identidad contemporánea” da qual as redes sociais são um elemento central. Tendo Miss Beige as redes sociais como principal montra para o seu trabalho, como está a participar dessa construção de identidade?

Justamente ofreciendo otros patrones y conductas distintas a lo que se ofrece pero que responden al aquí y ahora. Cualquiera que desee proponer nuevas ideas debe ser atrevido. La sociedad nos presiona ferozmente para que nos conformemos. Los rituales de la apariencia, la estética del artificio y la reflexión sobre el género forman parte del trasfondo conceptual de mi trabajo, donde invito, a través del humor, a jugar, y, de esta forma, liberar la imagen de la feminidad entendida como construcción cultural basada en convenciones arbitrarias impuestas a lo largo de los siglos.

Trankimazin. © Miss Beige

P- A anti-selfie de Miss Beige penso-a como uma continuação da tradição do auto-retrato na fotografia. Como vê a Fotografia hoje nas intersecções atuais entre digital, analógico, amador, profissional, público, privado? Que futuro?

No tengo ni idea porque mi conocimiento del mundo de la fotografía es muy limitado. Solo sé cuando una imagen me funciona y cuando no. Miss Beige se retrata con ironía y mordacidad para alertarnos de la exagerada importancia que otorgamos a la imagen y para mostrarnos que un enfoque sin filtros es posible. Ya es hora de que un color insulso pero singular como el beige nos reajuste nuestro prisma porque, como dice el dicho: «Todo depende del color del cristal con que se mire que no del filtro de Instagram».

P- O papel do humor na construção de Miss Beige.

El papel del humor es del 100%. Para mí el humor es una cosa muy seria que solo funciona cuando muestras de frente tu vulnerabilidad.

Las banderas empequenecen. © Miss Beige. Fotografia:Maria Dain

 

Obrigada Ana Esmith a.k.a. Miss Beige !

Porto. Capuchos. Novembro 2020

 

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