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Anotação dois

Anotação dois

“O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto, é a matéria. Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo. “

Máquina de Fogo de António Gedeão. 1961

 

SARS-CoV-2© Shutterstock

Desde janeiro que observo variações cromáticas e diferentes combinações estéticas desta imagem de um corpo que não vejo e que neste preciso momento condiciona 7,7 mil milhões de pessoas, conscientes disso ou não.

Em confinamento, palavra que tão raramente declinei antes de março de 2020, devido a algo cuja materialização configuro mentalmente a partir de números, estatísticas, imagens de avenidas desertas, hospitais vistos por lentes embaciadas, caixões em série, infografias de curvas epidemiológicas que espremo o cérebro para entender.

A partir da imagem desse corpo invisível, inicio um itinerário mental em torno da fotografia e das ciências exactas, em particular das biomédicas.

Faço uma linha temporal, com muitos saltos e lacunas eu sei! Habitado por preferências pessoais, certamente! Uma forma possível de encontrar sentido ao presente. Isso com certeza!

Escolho algumas imagens representativas desta busca de compreensão das propriedades do mundo natural, universo dos fenómenos físicos. Das diferentes partículas vivas, ao interior dos nossos corpos, passando pela expressão física de emoções. Imagens quase sempre reveladoras dum mundo invisível e por isso misterioso.

Mécanisme de la physionomie humaine” @ Duchenne du Boulogne.1862

 

As práticas fotográficas no campo médico-científico, são enquadráveis no paradigma mais abrangente da fotografia documental. Que grosseiramente defino como construção visual de prova da realidade, da existência.

Considero que o livro Burden of representation(1988) de John Tagg continua relevante no âmbito desta discussão. Este autor estabelece uma ligação entre o surgimento do documento fotográfico na segunda metade do século XIX e a aparição de instituições tais como a polícia, a prisão, o manicómio, o hospital, a escola e o sistema fabril moderno.

Neste livro John Tagg afirma ter sido estabelecida uma associação entre o documento – a fotografia neste caso – e uma linguagem de verdade. O que permitiu a aceitação desta nova metodologia, de registo, análise, sistematização e em última análise, de controle social.

Explicita ainda que a ideia de uma tradição documental contínua, que considerava a prova fotográfica como algo neutro e determinado é um complexo processo histórico assumidamente desenvolvido, mas sendo quase indeléveis os traços da sua construção.

A imagem acima representa um momento na evolução da fotografia documental: uma página do livro Mécanisme de la physionomie humaine de 1862. Publicação essa que condensa a investigação de Guillaume Duchenne (1806-1875), cientista francês que trabalhou na área da neurofisiologia, a fisiologia do sistema nervoso. Duchenne conseguiu relacionar as expressões fisionómicas de pacientes à estimulação dos seus músculos. Utilizou uma corrente eléctrica de baixa frequência que possibilitava diferentes acções musculares, sensitivas e de circulação sanguínea, identificando dessa forma o funcionamento das conexões biológicas e os seus estados disfuncionais.

A imagem fotográfica foi um elemento essencial na construção da investigação científica de Guillaume Duchenne. Enquanto componente do processo técnico e prova da sua concretização. A fotografia foi também instrumento de experimentação artística, numa espécie de performance em torno do acto científico.

A encenação das práticas científicas, é uma ideia que encontro actualmente enformada na obra da artista francesa Orlan. Dramaturgia do acto cirúrgico, nas quais o bloco operatório, o corpo médico e o conjunto de instrumentos, processos e intervenientes sofrem um tratamento teatral, sendo o corpo da artista ao mesmo tempo elemento de transformação científica e objecto artístico.

Embora alguns desses elementos estejam presentes nas imagens que constituem a investigação científica de Duchenne: a encenação no âmbito da ciência, uma sensação de performance, o corpo como ferramenta da narrativa, a fotografia como forma de registo e de prova; são no entanto muito claras as diferenças no propósito das imagens. O corpo na obra de Orlan traduz as intenções do criador da fotografia que é também a intérprete, o sujeito retratado. Esta obra expressa uma pulsão artística, podendo ou não, com o passar do tempo, constituir-se documento social e histórico.

As fotografias da experiência de 1862 procuram a objectividade. O domínio da técnica e o trabalho de retrato, contribuem para a validação deste acto científico. Na utilização de velocidades de obturação que permitem congelar o movimento facial. Pela presença no estúdio improvisado de fundos brancos ou cinzentos que introduzem neutralidade e severidade à imagem, concentrando-se o nosso olhar nos rostos fotografados em mutação. Na similitude dos enquadramentos, que sugerem um ritmo visual constante, formulação que encontraremos mais tarde na obra fotográfica de Bernd e Hilla Becher. Características que sugerem objectividade, tal como a cuidadosa inclusão do instantâneo que as mãos dos investigadores envolvidos na pesquisa e os instrumentos medico-científicos necessários à experiência nos apontam.

E assim a fotografia apresenta-se enquanto prova irrefutável de um processo científico em torno das expressões faciais.

Ergue-se no entanto uma questão, que se mantém até hoje pertinente em torno do papel do retratado na produção da imagem. A obra do fotógrafo contemporâneo sul-africano Pieter Hugo é disso prova, sendo possível aferir que a resposta não dependerá da natureza clínica, social, política ou económica das pessoas fotografadas.

O que diz afinal o retrato, que muitas vezes toca apenas a superfície do sujeito retratado? E que papel desempenha o sujeito retratado na imagem e na sua construção? É um narrador de si mesmo ou um figurante de uma história que lhe é exterior?

A formulação de que a Fotografia Documental é a construção de prova irrefutável da realidade encontra assim oposição, surgindo como hipótese mais acertada a de ser o documental um discurso visual sobre a realidade. Tendo de ser avaliada a interferência de todos os agentes envolvidos na sua produção.

Preparações de Ricardo Jorge do bacilo da peste bubónica no Porto (1899) @António Plácido da Costa. Museu de História da Medicina “Maximiano Lemos”. Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

 

Março 2020. A cidade do Porto fecha-se às primeiras indicações das autoridades municipais. Sem carros, sem pessoas, de dia e de noite uma calma particular atravessa a rua. O passado parece ecoar para este imediato, total, firme e silencioso comportamento. Fecho total face um inimigo exterior.

Encontro a imagem das “Preparações de Ricardo Jorge do bacilo da peste bubónica no Porto em 1899” e penso nas referências ao longo destas últimas semanas ao Instituto Ricardo Jorge, no âmbito da investigação científica portuguesa em torno da Covid-19.

O momento que a imagem precisa é o ano de 1899 e a acção decorre na cidade do Porto, atingida a esse momento pela terceira pandemia da peste bubónica. Durante quatro meses e como medida de contenção, a cidade vive um apertado e militarizado cerco sanitário. Num Portugal económica, social e estruturalmente pobre, precário e, palavra recorrente nos textos que leio, salubre. São referenciados no balanço final para a posteridade 320 casos e 132 mortes.

Ricardo de Almeida Jorge (1858-1939) médico, investigador e higienista, responsável pelos Serviços de Saúde da Câmara do Porto e que desenvolveu trabalho a nível nacional em termos de práticas de Higiene e Saúde Pública irá estudar este surto. Acompanhado por António Plácido da Costa (1848-1916), também ele homem das ciências exactas, médico e oftalmologista, que nesta investigação trabalhará na área da micrologia médica.

Conseguirão chegar à prova clínica: a narrativa dos pacientes, à prova epidemiológica: as causas e sintomas da epidemia e por último à confirmação bacteriológica: a identificação, classificação e caracterização da espécie bacteriana em causa.

Os resultados serão publicados em livro ainda durante o ano de 1899, acompanhados por ilustrações fotográficas. A imagem que escolho, parte integrante dessa publicação e representativa do binómio ciência-fotografia, constitui uma formulação preparatória para o estabelecer da fotomicrografia, que resulta da associação entre o microscópio e a fotografia. Disciplina essa que irá ser determinante para o desenvolvimento da Botânica, da Zoologia, da Anatomia Patológica.

Estas imagens apontam também um questionamento constante no seio da Fotografia: a fronteira entre os conceitos de amador e profissional. De forma simplificada podemos considerar que estas imagens científicas são a expressão de amadores fotográficos, dado que a fotografia não representava o foco único das suas actividades profissionais sendo um instrumento que derivava da mesma. No entanto, e o paradoxo encontra-se aí, o trabalho que desenvolveram representa a base para a definição e construção da fotografia científica profissional.

E de lá até agora, mais variáveis se ergueram neste delinear de espaços. Atingindo-se com o universo 2.0, uma labiríntica contaminação ontológica.

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1ª Radiografia de uma mão @ Röntgen.1895

 

A impossibilidade do corpo humano em percepcionar (ver, ouvir, tocar, cheirar, saborear) uma parte considerável de toda a matéria natural existente foi, nas lacunas da ciência, muitas vezes alimento da narrativa de diferentes tradições do oculto e a fotografia disso também foi sendo parceira.

A popularidade das sessões espíritas no final do século XIX e as diferentes utilizações sociais, estéticas e mesmo criminais das forças não tangíveis são disso prova. Os livros Fotografia e verdade: uma história de fantasmas (2010) e A Última Imagem – Fotografia de uma ficção (2012) da investigadora Margarida Medeiros, estabelecem uma emocionante viagem teórica sobre esta questão.

A imagem acima remete para o espectro electromagnético. Que engloba o espectro visível, essa luz branca feita de cores que a fotografia regista em toda a sua escala de comprimentos de onda. E abarca também o espectro das radiações não visíveis, que nos atravessam e envolvem o corpo e que no passado muitas vezes confundiram a mente humana nessa encruzilhada entre razão e misticismo.

Um fotograma de uma mão, penso. Uma fotografia. Não, uma radiografia. Um anel. A mão de Anna Bertha Ludwig, dizem-me os livros. A imagem da mão da esposa de Wilhelm Conrad Röntgen, investigador alemão nas áreas da física e da engenharia mecânica.

Esta mão (o interior dela) representa a descoberta e definição das propriedades de um nova radiação: os raios-X. Investigação que será apresentada sob a forma de livro em 1895 – Ueber Eine Neue Art von Strahlen – “Sobre uma nova espécie de Raios”.

Röntgen analisou que esta radiação presente no espectro electromagnético e gerável pelo envio de electrões através de um tubo a baixa pressão, podia atravessar objectos opacos, sensibilizando a película fotográfica. Percebeu não ser necessária uma câmara fotográfica para o processo de formação de imagens com essa radiação, sendo para tal necessário colocar o objecto a ser fotografado entre uma superfície sensibilizada e a fonte de radiação.

Começo finalmente a conclusão e arrisco anotações.

Várias visões possíveis do corpo e do mundo. A microbiologia circunscrita em imagens como no trabalho de Ricardo Jorge e António Plácido da Costa, o mundo involuntário das emoções nos retratos de Duchenne e o corpo físico interior materializável pela radiografia de Röntgen. A condimentar esta mistura, a concretização visual dos fenómenos inexplicados pela razão.

O encontro com o mundo natural, com as partículas que entre ele e nós se produzem, com um corpo emocional visível e também com a fragilização das explicações exteriores à razão, conduziram à emergência de um corpo mental aparentemente todo-poderoso. Corpo esse que começou depois a delinear-se em cenários passíveis de serem aumentados, transformados, alugados, concedidos, cessados.

As últimas semanas trouxeram uma imagem científica mais próxima da pintura do que da fotografia, símbolo de que o discurso científico suscita por si os valores de verdade. Continuando a escrever-se a dúvida sobre a importância e validade que a fotografia tem no tempo presente.

O corpo esse (re)descobre-se. Agora e outra vez, matéria física que deseja apenas o seu espaço no universo natural!

Nota: Agradeço à Drª Amélia Ricon Ferraz, directora do Museu de História da Medicina “Maximiano Lemos”, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, a cedência da imagem de Ricardo Jorge e António Plácido da Costa utilizada neste texto.

 

Porto. Março 2020.

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