A Ler
Anotação doze

Anotação doze

“Ontem, hoje e amanhã”*

porvir da Fotografia, um pensamento colectivo

 

© Carlos Relvas. Auto-retrato. Golegã. 1870.

 

Reformulo com a honestidade que me é possível, as frases que deram o mote ao questionamento deste texto. Razão essa (tão pouco ao gosto do agora de afetos de pequena escala) que balizo entre um passadismo que sente com saudade o passado, nutrindo alguma aversão ao que muda e a vertigem do novismo, esse gosto inexorável pelo novo.

Está viva a Fotografia? Para onde caminha? Como se caracteriza hoje em dia um fotógrafo e que linhas separam o Amador do profissional?

A fotografia tal como a descobri em adolescente nos Capuchos (ou teria sido em Moçambique?) em pré-adulta no Politécnico do Porto, em adulta a trabalhar, mudou!

Como era antes e como é agora? A prática mudou, a mística em torno da disciplina mudou, o propósito no fazer mudou!

Analisados os pontos em cada um dos itens, constato que acima de tudo o que mudou radicalmente (na raiz) foi a minha motivação para fazer Fotografia!

Continuam a existir trabalhos exclusivamente dedicados à produção fotográfica, na imprensa, nas empresas, nos privados singulares, no ensino.

Existe muita competição para os mesmos lugares, sim, talvez, nem por isso!

A forma romântica como vi a Fotografia durante muitos anos mudou? O meu propósito ao fazer imagens mudou? Sim é verdade. Mas em muitos aspectos, o meu filtro romântico sobre tudo mudou, tem furos. Sim.

O problema das perguntas é que raramente terminam num cenário fechado de respostas binárias. Correndo tudo bem, a cada pergunta deverão surgir pelo menos três opções (bendita trindade): sim, não, talvez e daí ao infinito.

Amador vs profissional e comercial vs autor

Ataco a segunda parte da equação que envolve a subsistência.

Tal como abordei em artigo anterior em torno da democratização da Fotografia, recorrentemente alude-se ao alargamento do espectro de compradores da Fotografia enquanto objecto artístico, não parecendo existir sempre um efeito inequívoco entre esse facto e a condição do fotógrafo.

Manifestamente existe um aumento do número de produtores de imagens fotográficas e uma proliferação e amálgama das variáveis já existentes: comercial, artístico, profissional, amador. Sendo também visível um acréscimo do número de estudantes em instituições académicas ou estruturas informais de aprendizagem da arte fotográfica e dos conhecedores – em graus diversificados- das diversas estéticas e do que parecem ser as diferentes histórias da Fotografia.

Não existindo a meu ver, um claro entendimento sobre as razões da manutenção de dicotomias técnica e arte, das derivas enquadráveis na diferenciação clássica entre artes maiores (Beaux Arts) e artes menores (artes aplicadas)e de uma lógica luta de classes, que separa povo e elites, trabalhadores manuais e intelectuais.

Na altura da saída do livro sobre a obra editorial de Walker Evans o autor David Campany afirmava a propósito da questão comercial:

“ Só existem quatro formas de ser fotógrafo: ou és independente financeiramente, ou és pago para fazer imagens (um fotógrafo comercial, com a independência mental que podes manter); ou és pago pelas tuas fotografia (i.e. enquanto artista –isso só aconteceu a Walker Evans nos últimos anos da sua vida); ou a fotografia é um hobby, uma forma de ocupar o tempo livre e ganhas a vida de outra forma.”

No âmbito do debate amador- profissional, trago varias contribuições.

Michael Pritchard afirma, num texto intitulado “Quem eram os fotógrafos amadores” numa extraordinária plataforma intitulada Eitherand: “no inicio do período (1839 -1914) o amador era o cavalheiro-amador, com capacidade económica para praticar a fotografia e tal manteve-se até 1870s/1880s quando novas tecnologias fotográficas e novos métodos de produção e venda, sustentada por mudanças mais abrangentes na sociedade, encorajaram as classes médias e depois as aspirantes classes trabalhadoras, a virarem-se para a fotografia como forma de lazer. A meio da década de 90 do século XIX, o Amador tem outras duas categorias, entre os que se interessavam pela fotografia enquanto hobby e os snapshotters que apenas faziam imagens. “

No contraponto português, o trabalho de compilação da hemeroteca digital de Lisboa, permite analisar muita informação interessante, também desenvolvida no livro Uma História da Fotografia de António Sena sobre esta fase da História da Fotografia, dedicada aos Amadores.

Em Portugal em 1886, é criada a Academia Portuguesa dos Amadores Photographicos, em Lisboa, sob a presidência do Príncipe D. Carlos e de António Augusto de Aguiar. O Instituto Photographico de Lisboa, aparece em 1889, sendo o primeiro estabelecimento dedicado à fotografia amadora e dirigido por Arnaldo Fonseca. Em 1890, Carlos Relvas e Alberto de Oliveira, criam o Grémio Portuguez d’Amadores Photographicos e em 1887 e com apenas dois números (Abril e Maio) publicou-se o Boletim da Academia Portugueza de Amadores Photographicos, revista mensal “collaborada por todos os membros da Academia”.

Entre 1890-1892 é publicado o Boletim do Grémio dos Amadores Photographicos, uma iniciativa de Carlos Relvas, Ildefonso Correia, Alberto de Oliveira e outros fotógrafos amadores. O Boletim Photographico inicia a sua publicação em Janeiro de 1900 vindo ocupar um espaço deixado vazio no panorama editorial português, sendo na sua essência, uma revista técnica e especializada, para um público de fotógrafos amadores e profissionais, sendo afirmado objectivamente, em alguns dos editoriais, que não pretende excluir nem uns nem outros.

Numa análise centrada na contemporaneidade Michel Frizot no artigo « Amateurs et anonymes : de l’autorat et de l’autorité en photographie » afirma que:

“ O amador é um operador-fotográfico que ignora- ou não usa- a doxa (opinião comum) da prática fotográfica. Coloca em ação um dispositivo que sabe apenas que lhe irá fornecer uma imagem daquilo que ele próprio viu no visor no momento da tomada de vista.

(…) Mas essa imagem ultrapassa por vezes as suas intenções, ao deixar perceber os artefactos especificamente fotográficos

(…) A fotografia de Amador atesta a plena desafeição da noção de autor levada a cabo pela invenção da fotografia. (…) a qualificação de autor é portanto substituída pela da autoridade. Todas essas obras expõem de facto em imagens, critérios de ‘autoridade’, de escolha: a saber o que pode ser mantido, selecionado, excluído.

Segundo bases de apreciação “fotográfica”, o que autoriza a validação de uma imagem em detrimento de outra, constituindo-se validação. (…) podemos constatar que são os colecionadores cansados das obras fotográficas que procuram as suas marcas numa transação direta, emocional, intuitiva. Procuram essa falha que torna visível na fotografia de baixo nível, esses índices muito humanos e anteriormente escondidos em imagens demasiado saturadas de intenções e referências.

(…) A moda atual da fotografia anónima amadora ou popular, corresponde à necessidade de descobrir e denunciar, através dessas fotografias, critérios de apreciação de imagens que não tínhamos antes percebido no tumulto do outro, a Fotografia reconhecida pela História e que poderá ainda sofrer vários ressaltos.”

Pedi via rede social opiniões a estas minhas perguntas. Recebi vários pontos de vista e solicitei outros ainda a pessoas de quem aprecio a forma de pensar, homens, mulheres, fotógrafos profissionais e amadores, de várias geografias, classes sociais e idades. A todos muito obrigada pela gentileza de pensar comigo em torno da questão: está viva a Fotografia e para onde caminha? E que linhas, se algumas, separam ainda amadores e profissionais?

Afonso Jorge. Alcobaça.

IG: @saintkuala

“Acho que cada vez é mais difícil distinguir o que antes era chamado de fotógrafo amador e profissional. A facilidade de ter câmaras e telemóveis que fazem tudo sozinhos, facilita isso, obviamente. Qualquer pessoa com um telemóvel razoável consegue tirar fotos excepcionais.

Obviamente uma pessoa com menos recursos, ou até menos aprendizagem na área consegue hoje em dia fazer o mesmo que uma pessoa com todos esses recursos. Por outro lado pessoas que se calhar investiram mais tempo a aprender e a dedicar-se à fotografia acabam por não se destacar tanto no meio da quantidade de conteúdo que existe. Acho que se manterá desta maneira e cada vez crescendo mais (em termos de quantidade). As tecnologias e a evolução das mesmas assim o indicam.

Eu uso a fotografia e a edição da mesma para transformar algo que existe em algo que não existe. Possivelmente não teria tanta facilidade em fazê-lo sem a tal evolução das tecnologias. Eu uso-a como a minha forma de me explorar a mim mesmo de certa maneira. Tento interpretar aquilo que penso ou sinto e tento aplicar isso no trabalho que faço.”

Miguel Marecos. Porto. 

IG: @miguel._.marecos

“A fotografia está claramente viva, por isso ela caminha ou “evolui” através da sua componente tecnológica (com a criação de novas máquinas fotográficas, mais avançadas com uma multiplicidade de possibilidades) ou da sua componente criativa, que será sempre infinita e imprevisível no resultado.

Estes dois componentes são um indicador de que a fotografia mexe e está viva, porque existe uma procura e um interesse crescente, provavelmente pelo aparecimento das redes sociais, onde qualquer um de nós poderá colocar a fotografia/imagem que realizou e assim ser vista (ou não) por outras pessoas.

Antes a fotografias eram vistas mais num contexto familiar, profissional ou de um restrito número de amigos, actualmente a fotografia massificou-se.

Agora a questão é se gostamos (cada um de nós, com a sua teoria/conhecimento/gosto) ou não do rumo que a fotografia está a ter.

Creio que não devemos sofrer por antecipação, faz parte do caminhar, que no seu devido tempo tudo será objecto de estudo, debate, análise e catalogado, creio que existem (e existirão) definições e teses para todos os gostos e feitios.

Como eu sempre tenho dito, aquilo que as pessoas se vão esquecendo à medida que vão evoluindo, no caminhar pelo mundo da fotografia, é da paixão, pois é essa paixão que nos une, independentemente dos gostos/conhecimentos de cada um.

Creio que apesar de existir um espaço para cada um (fotógrafo amador e fotógrafo profissional), poderá por vezes existir um espaço onde não se possam distinguir, conforme o grau de conhecimento técnico, capacidade criativa, experiência de cada um.

Uma vez que o conhecimento hoje em dia encontra-se na maior parte das vezes acessível a quem o procura, não será de estranhar que um fotógrafo amador possua os mesmo conhecimentos que um fotógrafo profissional e o resultado do seu trabalho se aproxime de um trabalho de um profissional, obviamente não é uma situação generalizada, mas acontece e não devemos ficar chocados com isso.

O mais importante nesta questão toda é ter sensibilidade suficiente para olhar o trabalhos dos outros, não matar a paixão que existe dentro de cada um com muitos estereótipos/preconceitos, pois sem paixão acaba o caminhar e nunca se sabe o para onde esse caminho nos poderá levar.”

Vitor Dalmeida. Porto.

IG: @vitor.dalmeida

“ A massificação da ARTE pode ser o fim dela própria. É o que poderá acontecer à FOTOGRAFIA”

Eunice Pais. Porto.

IG: @pais.agency

“De um ponto de vista evolutivo, acho que amador e profissional seremos sempre. Temos que nos adaptar e praticar até sermos especialistas, sendo que nunca o seremos verdadeiramente. Penso que a fotografia continua bem viva.”

Mário Pires. Lisboa. 

IG: @retorta

” A fotografia está viva, enquanto os seus praticantes tiverem ideias que os queimam por dentro e que querem partilhar, o futuro da imagem está assegurado. Os equipamentos que nos permitem captar imagens mudam continuamente. Qualquer tecnologia integrada muda a forma de capturar imagens ou o seu aspecto. Podemos recusar todos os avanços técnicos se assim o desejamos, mas não são eles que produzem imagens desprovidas de emoção, esse ónus pode ser atribuído a quem os opera. Os equipamentos que nos permitem captar imagens mudam continuamente. A actividade profissional vai continuar a mudar e a ser cada vez mais especializada, se o profissional quiser continuar a ser relevante face a meios de automatizados de captura e edição de imagem.”

João Paulo Coutinho. Porto

IG: @ jpcoutinho 

# Como se caracteriza hoje em dia um fotógrafo e o que separa um profissional de um amador?

“Começaria por dizer que, separação é difusa, talvez só o IRS quando se está colectado :-).

O profissional está limitado pelo objectivo e pelo foco do cliente. O amador, por vezes bem melhor equipado que o profissional, tem uma maior liberdade plástica e de foco e de organização de tempo, em teoria!

Não significa que a pratique! A maioria quererá provar que esteve lá ou criar uma imagem de si próprio.”

# Uma nova definição?

“Numa crescente mestiçagem de processos e recuperação de processos antigos e suportada na aquisição e divulgação pelo meio digital e, por uma falta consensualizada de estudos condensados sobre a fotografia, que nada contribui para combater a iliteracia visual, traçar um caminho para o futuro é uma incerteza!

As várias abordagens da fotografia, na democratização da fotografia maioritariamente não passam de repetições de autores, ou variantes, cansativas. Pobres testemunhos da existência, sem qualquer reflexão nem à priori nem à posteriori e de editoriais que nada compreendem da mensagem visual, valorizando o impacto visual!

Falta antes de tudo uma filosofia da fotografia. Faltam discursos longos e trabalhados!”

# Está viva e para onde vai?

“Viva, mas vive na espuma dos dias. Temos um suporte organizado e globalizante que nos permita interpretar uma série de contextos de uma fotografia, de uma série, compreender o autor e a mensagem? De ler e compreender os últimos 50 anos da fotografia?

Ela está viva porque massificada e tecnologicamente acessível ou então de nichos de mercado livreiro e galeristas que se promovem e funcionam em bolha.

Mas está viva! Embora comercialmente desvalorizada e o impulso das redes transforma-a num ruído, não passando muitas vezes de exposição adequada e observação.

Um outro ponto de distinção é entre fotografia e imagem. Onde a fotografia perde autonomia e é trabalhada como subproduto de design.

Esta aparente anarquia, com grande dose de ignorância mas também de modas e da volatilidade das redes e de uma necessidade e pulsão de modas que arrasta, penso eu, para o impacto visual da fotografia e não para a sustentabilidade da análise!

Resumindo: O que é a fotografia? Como se analisa uma fotografia? Uma fotografia é boa ou má? O que é o discurso e o que constitui esse mesmo discurso fotográfico e a sua linguagem? E uma narrativa?

Penso que textos, mesmo que sejam reflexões pessoais sobre temáticas, serão sempre bem vindos.”

Juan Esteves. São Paulo.

IG: @ juanesteves

” A diferença de um amador para o profissional é que este último recebe dinheiro pelo que faz. Quanto à qualidade do trabalho de cada um não há diferença. O mais interessante movimento da fotografia que foi o Modernismo foi constituído de amadores na maioria. Nunca houve uma linha divisória entre profissionais e amadores quanto a qualidade. Precisamos também pensar que nem todo o mundo que “posta” fotografias é fotógrafo… O século 21 entupiu o mundo de imagens, a maioria ruins…

Mas o que continua a valorizar um fotógrafo real de uma pessoa que posta fotografias, sempre será o seu talento…

A fotografia faz seu futuro no presente bem como paradoxalmente já é passado. Mas os gadgets cada vez mais estarão nas mãos da maioria. Mas a “arte fotográfica” se volta para os chamados processos históricos e alternativos cada vez mais artesanais. ”

Luis Duarte . Porto. 

IG: @luisduarte

” A democratização e banalização da fotografia é um processo sem retorno, a era digital assim obriga. Qualquer pessoa é “fotógrafo”, qualquer pessoa tem acesso fácil a uma câmara fotográfica e a massificação das imagens é uma realidade. Pessoalmente e como apaixonado pela fotografia analógica e processos alternativos, acredito que a única forma de reverter este processo é “pensar a fotografia”, implicando uma dedicação e abrandamento no ato de fotografar que só as “limitações” dos processos analógicos nos permitem (denominada slow photography).”

José Morais. Porto.

“Apresentas uma reflexão sobre a fotografia que, afinal, é uma reflexão sobre a evolução da sociedade. A fotografia tem um valor documental, por isso, reflecte o mundo em que vivemos, mesmo a fotografia dita de autor/artística porque a fotografia é uma forma de expressão, que conta o que se vê e, nesse sentido, é documental.

Amador ou profissional, o que conta é o modo como cada um se exprime. Voilá!

As pessoas gostam muito de fazer fotografias, há um registo do mundo muito alargado, um registo de nós mesmos. Estudar as fotografias que são feitas é desvendar a sociedade em que existimos. Há diferentes registos, sem dúvida, mas nesta perspectiva da fotografia como documento, todos são importantes. Mostram mundos diferentes, que coexistem, que nos retratam.

Como será? Não sei. Como seremos?”


Tiago Caldas. Beja. 

Ver Também

IG: @tiago_cal_n__

“Tenho dificuldade em definir as linhas, penso que há muitos pseudo-profissionais, mas o que o define é a relevância. Poucas fotos atingem esse patamar, o da relevância.

A fotografia está bem viva, no sentido que se distingue do lixo fotográfico que anda pelo eco-sistema digital. Acho que caminha para uma certa singularidade.

A fotografia que se torna de alguma forma “icónica” ainda sobreviverá, o resto é ruído.

Precisa sempre de se materializar. O que vemos é sempre analógico em última análise, mesmo que seja no ecrã. É luz.”

Magda e Domingos. Lisboa. 

IG: @imagerie_instagram

” Dar uma definição da fotografia no século XXI é, para nós, uma tarefa demasiado complexa ou até mesmo impossível. Por outro lado, não nos parece que ser fotógrafo hoje, ou a linha que separa um amador de um profissional se tenham alterado muito desde o século passado. Ser fotógrafo sempre significou uma miríade de formas de praticar essa expressão, e o que separa o amador do profissional será essencialmente o rendimento que se tira da prática. A reflexão aplicada à prática da fotografia deveria estar no cerne do trabalho de um profissional, mas não é obrigatoriamente o que se verifica, e muitos amadores fazem-no de forma muito profunda.

A razão de ser, tanto no que diz respeito ao que elas comunicam como no que diz respeito aos recursos que se usam. Voltamo-nos para a tangibilidade da fotografia como oposição à sua desmaterialização, e nesse caminho refletimos também sobre a própria natureza da matéria que manipulamos. O processo e a sua reflexão têm uma importância fulcral no nosso trabalho. No entanto, a mesma desmaterialização de que nos afastamos na nossa prática, permite-nos hoje mais do que nunca comunicar com públicos que não atingiríamos se a única forma de partilhar pensamento e trabalho fosse física.

O que se alterou (ou multiplicou) profundamente foram as ferramentas para a prática fotográfica, assim como para a sua difusão e rentabilização. A Fotografia está profundamente enraizada na nossa cultura. Nesse sentido, está tão ou mais viva hoje do que estava há décadas atrás. Continua a ser paradoxal em vários sentidos- o da memória e da verdade. ”

Marlene Oliveira. Torres Vedras.

IG: @ marolivekra

” No início o que era a fotografia, senão uma arte amadora, que surgiu no seio de uma camada endinheirada?

Acredito que a fotografia amadora e profissional se misturam desde a sua invenção e se influenciam mutuamente. Para mim um fotógrafo profissional é uma pessoa que faz da fotografia o seu modo de subsistência.

Mas isso só por si não transforma a pessoa num fotógrafo tecnicamente mais perfeito, nem mais creativo. As duas vertentes estarão eternamente ligadas e na minha humilde opinião, precisam uma da outra. Os fotógrafos amadores guiam-se pela qualidade técnica que vêm no trabalho dos profissionais, mas têm uma liberdade criativa e um espaço de experimentação, que por vezes é mais difícil de conseguir num ambiente mais profissional. Um exemplo claro disto são os editoriais de moda que se vêm atualmente e que tentam seguir uma estética influenciada pelas redes sociais e menos focados na qualidade técnica das imagens. Não vivemos numa bolha, vivemos num mar de experiências e os títulos que adquirimos (a educação e o que tu exerces profissionalmente) pelo caminho importam cada vez menos.”

Margarida Ribeiro. Vila do Conde. 

IG: @mar.ribeiro2020

“A fotografia é uma ferramenta de comunicação que foi acompanhando a transformação da humanidade.

No início da sua história era uma ferramenta utilizada por uma pequena elite, hoje uma grande percentagem da população mundial tem acesso a um dispositivo fotográfico no seu telemóvel.

E o resultado é o excesso de fotografias, a produção massiva, e isso é o reflexo do que está acontecer globalmente, o excesso de produção e de consumo de tudo e isso tornou-se insustentável. O fenómeno das redes sociais e a estética instagram, com as selfies e as fotografias bonitas de comida associa o acto de fotografar ao acto de “postar”, tudo tem que acontecer rapidamente, sem tempo para pensar.

Acredito que esta enorme quantidade de imagens servirão para disciplinas como a história, sociologia e a psicologia, aprofundem o conhecimento sobre a humanidade e comportamento humano.

A fotografia de autor continuará a permitir a uma pequena parte dos autores subsistir com o seu trabalho. Esta foi, é e será a realidade da arte, da cultura e do conhecimento e pensamento.

O fotojornalismo continuará a ter um papel essencial na discussão da informação, existirá sempre jornalismo sério e rigoroso contrabalançando com o jornalismo espectáculo e difusão massiva das fake news.

O fotógrafo profissional, à partida, subsiste com o seu trabalho, o amador não. Mas parece-me que essa linha que os separa é cada vez mais ténue. E com esta transformação rápida global as profissões e forma como iremos subsistir é ainda uma incógnita.

Depende de muitas decisões políticas se caminharemos para uma humanidade mais harmoniosa e em sintonia com a natureza ou para o caos total.

Eu quero acreditar na primeira hipótese. Essa é a minha utopia.”

João Pedro Marnoto. Porto.

IG: @jpmarnoto

” A fotografia saiu do espaço restrito que antes de 1888 a tornava acessível apenas a quem podia, não a quem queria. Mais recentemente com o advento digital e das redes sociais, além de acessível tornou-se popular. Diria que se tornou a linguagem principal, a imagem, tanto fotográfica, quanto vídeo, essa arte que tanto ilude num mundo de aparências como nos cria ilusões num mundo de desejos por cumprir. No entanto teve o mérito de pôr as pessoas a praticar tal linguagem visual de uma forma mais recorrente, e com tal tornar o comum dos mortais mais consciente das manhas, truques e virtudes que a mesma acarreta. Já não somos tão inocentes e o público tornou-se exigente. O que, para quem cria, é sempre um desafio enriquecedor. Sim tornamo-nos todos fotógrafos, tal como antes todos já éramos condutores…

Apenas questões burocráticas e de prática distinguem o profissional do amador. Isso é o fim da fotografia? Sim da visão elitista e presunçosa. Mas não da fotografia como prática comum e das formas de expressão mais acessíveis.

Acarreta consequências aos profissionais? Claro. Mas não é uma questão unicamente da fotografia, mas antes do mundo digital e da transformação da sociedade. Obriga a novos caminhos, como também permite novas possibilidades. E vence quem melhor se adapta, tanto aqui como noutras situações, que a vida não espera. É o preço a pagar pela liberdade, pela democratização, pelo dito progresso, porque tudo tem um preço.

Faltam regras para tornar o jogo mais justo? Talvez. Mas a natureza das práticas (amadoras e profissionais) por si só marca em boa parte a diferença do jogo. Diria que a fotografia nunca esteve tão viva. Porque nunca tantos e tantas comunicaram pela imagem.

O futuro? Já aí está… o vídeo. É apenas uma extensão da linguagem visual acrescentando a camada do som. O Mundo não para!”

Micaël de Oliveira. Alcobaça.

IG:@micdo82

“A fotografia não está morta. Existe, está aí!

Não sei onde vai. O digital permite todos os automatismos, já não sendo necessário ter nenhuma técnica para usar um aparelho fotográfico. A fotografia enquanto objecto físico tem um espaço cada vez menor, mas há cada vez mais imagens digitais.

Tenho a sensação de que hoje em dia, fotógrafo é alguém que se define enquanto fotógrafo! Já não existindo um interesse geral em estudar ou ter experiência nisto ou naquilo.

O que conta é a capacidade de fazer um storytelling que coloque na cabeça dos outros que “és fotógrafo”! E a partir daí tens trabalho. Acho eu!

Tal como em todas as profissões, a diferença entre um profissional e um amador estaria nos estudos e na prática! Só que, como já nada disso parece existir, já só existem amadores!

Tenho a sensação que, tal como no início da fotografia, os meios económicos e portanto o tipo de investimento possível em termos de tempo e material agora, irá distinguir no futuro a prática amadora e profissional. ”

© Artur Pastor. Série “ A Condição Humana”. Alentejo. década de 40.

 

*Letra e música de José Cid. 1975

© 2020 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA.

Ir para o topo