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Anotação nove

Anotação nove

Da janela de um quarto só seu

Frame do filme “Janela Indiscreta” . ©Alfred Hitchcock. 1954

Intriga-me e apazigua-me o olhar sobre o outro à distância de uma janela. A experimentação cinematográfica de Alfred Hitchcock colocou em diálogo a visão do fotógrafo fechado na sua sala e que através da lente fotográfica, vê os outros para lá da ética e da capacidade humana. Revejo mentalmente As from my window I sometimes glance (1957-1958) do grande W. Eugene Smith e a forma de investigar o próprio ato fotográfico em torno do olhar à distância sobre o outro.

 

“As from my window I sometimes glance”. ©W. Eugene Smith. 1957-1958

Nessa série, W. Eugene Smith experimentou de forma quase obsessiva as hipóteses possíveis de olhar com variação o mundo exterior às suas janelas. Sendo que as alternativas de composição que o interior apresenta em contexto documental, são sempre menores face ao exterior quase infinito. E é dessa dicotomia entre a liberdade de olhar sem ser visto e a contingência de um interior limitado que surge As from my window, construção visual se não geradora pelo menos primeva face às inúmeras interpretações que o mundo digital tem trazido deste olhar à janela sobre o outro.

Em setembro deste ano, descubro o trabalho de Letícia Lampert Conhecidos de vista, realizado em 2013. Encontro entre o voyeurismo coreografado de Alfred Hitchcock na sua Janela Indiscreta de 1954 e a reportagem fotográfica humanista de W. Eugene Smith, a esta série acresce uma camada que me adensa o entusiasmo e a emoção, composta pelos objectos finais visuais (livro e exposição) que a Letícia desenha: narrativas de rácio perfeito entre poesia e comunicação.

Entendo igualmente o que diz sobre o lugar da humanidade no espaço urbano, as ligações entre pertença e solidão, as deambulações dos indivíduos e o papel da fotografia no meio deste ecossistema.

Decido não manter a análise em circuito fechado interno e contacto a Letícia de forma a conhecer o seu pensamento sobre a obra.

Livro “Conhecidos de vista”. ©Letícia Lampert. 2020

Mademoiselle Marçal: Vi os seus trabalhos “Conhecidos de vista” e “Random City” e gostaria de escrever um pouco sobre ambos. Como se organizou, materializou na Letícia a ligação entre o design e a fotografia?

Letícia Lampert: “Na verdade a mediação desta ligação veio pelas artes visuais, quando entrei em contato com os livros de artista. Minha formação inicial é design e ainda hoje atuo profissionalmente em paralelo ao meu trabalho de artista. Dentro deste campo, uma das áreas que mais me interessou sempre foi o design editorial, tanto livros quanto revistas. Quando comecei a estudar arte, não tinha ainda muito claro que a fotografia seria meu principal meio de trabalho, mas aos poucos, ainda durante a graduação, a fotografia foi se mostrando o meio com que eu melhor me relacionava, com que eu conseguia me expressar melhor. Assim, quando eu entendi que as publicações eram também uma forma possível de arte, foi muito natural este casamento entre um campo no qual eu já estava habituada e tinha o conhecimento necessário para produzir, o design, e a fotografia que era meu principal meio de criação e que tem, justamente na página impressa, um lugar muito coerente para se materializar.”

MM: Na minha pesquisa biográfica sobre a Letícia, descobri que realizou um mestrado em Poéticas Visuais, nomenclatura que me suscitou um grande interesse. Pode falar-me um pouco da estrutura desse mestrado em Poéticas Visuais? 

LL: “No mestrado em Poéticas Visuais desenvolvemos um projeto artístico, seja no formato que for, mas dentro do campo das artes visuais, e fazemos uma reflexão sobre este processo, sobre o processo criativo, relacionando com artistas e movimentos da história da arte que nos ajudam a entender estes processos. O Conhecidos de Vista foi meu projeto de mestrado. Na época, ele ainda não era um livro, foi apresentado como uma instalação audiovisual e foi feita uma dissertação sobre todo o processo de pesquisa e elaboração do projeto.”

MM: Como foi a transformação da fotógrafa e artista visual operada entre  “Escala de cor das coisas”, ” 拆[chāi] ” e “Conhecidos de Vista”?

LL: ” É difícil para mim perceber esta transformação, se é que há. Embora sejam trabalhos muito diferentes, acho que tem um certo “ressignificar” o mundo que está em todos, além de uma relação entre palavra e imagem. Mas na Escala de Cor das Coisas eu ainda estava num processo de entender a própria fotografia e minha relação com ela, estava ainda num processo muito de experimentação, de buscar um caminho e entender quais eram os meu interesses enquanto artista. O 拆[chāi], embora publicado antes, vem depois do Conhecidos de Vista, que foi um processo longo. Primeiro o mestrado, entre 2011 e 13, e depois um longo período até conseguir publicar em 2018, onde ele acabou sofrendo várias transformações, principalmente por causa desta transposição de meios, entre algo que inicialmente era audiovisual e que depois virou livro. O 拆[chāi] para mim é uma decorrência direta do olhar que existe no Conhecidos, esta busca pela intimidade remanescente nos escombros de uma cidade em demolição. Para mim eles estão todo interconectados de alguma forma, ainda que sutil.”

Exposição“Práticas para destrinchar a cidade”. ©Letícia Lampert. 2018

MM: Pode falar-me um pouco de como surgiram as obras “Conhecidos de Vista”, “Práticas para destrinchar a cidade” e “Random city”? 

LL: ” Estes trabalhos todos partem sempre da observação do meu entorno, da cidade onde estou. Conhecidos de Vista começou pensando na verticalização das cidades e na consequente falta de vista nas janelas. Quando um prédio tapa o outro, deixamos de ver a paisagem e passamos a ver a vida do outro. Ele foi realizado em Porto Alegre, cidade onde estava morando então. O Práticas parte de uma questão parecida, mas vem da observação de São Paulo. Eu estava fazendo uma residência artística lá e queria refletir sobre a própria cidade. Acho São Paulo uma cidade difícil de ver, no sentido de que ela é tão recoberta por prédios e construções que é difícil formar uma paisagem mental que situe ela como uma paisagem reconhecível. Daí veio a ideia do “destrinchar”, que tem o sentido tanto de tentar entender quanto de, de fato, desmembrar algo. Este é o tipo de jogo que está também na Escala de Cor das Coisas, este processo de usar as palavras muito literalmente como um jogo poético para ressignificar imagens. Nesta ideia de destrinchar, como quem quer entender, passei a recortar e remontar as fotografias de lá. Hoje tenho ampliado o processo para outras cidades também, sempre que acho a paisagem confusa e difícil de decodificar. Já o Random City começou durante uma residência artística em Xangai, e a motivação era tanto a nossa relação pessoal com os lugares, no sentido que sempre quando vemos algo vem na nossa memória os lugares onde já estivemos, quanto pensar no processo de globalização das cidades, do quanto elas vão se tornando cada vez mais parecidas quando viram grandes metrópoles, por isto o processo de colagem onde vou misturando várias cidades do mundo por onde eu vou passando como se fosse uma só. Este trabalho é um processo aberto, pretendo seguir produzindo ele sempre que for para um novo lugar.”

MM: Qual o apelo da nostalgia e da solitude metropolitana? 

LL: ” Acho que a cidade grande tem sempre este paradoxo das pessoas estarem muito próximas e muito distantes ao mesmo tempo, o que gera esta sensação de solidão. Mas acho que o Conhecidos de Vista, de certa forma, justamente quebra isto um pouco, por que, embora tenha este caráter de solidão nele, perceber que as pessoas acabam arrumando formas de criar relações entre elas mostra que tudo tem dois lados.”

“Random City”. ©Letícia Lampert. 2019

MM: São obras de consequência, umas face às outras?

LL: ” Você pergunta no sentido de uma desencadear a outra? Sim, vejo os trabalhos como uma desdobramento constante de práticas anteriores. Como falei, antes, acho que não teria chegado no 拆[chāi] se não tivesse feito o Conhecidos de Vista antes, por exemplo. Estas relações nem sempre são visíveis, mas elas estão ali, seja em questões conceituais, no processo criativo, no jeito de pensar e se relacionar com as coisas.”

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MM: A obra fotográfica para a Letícia tem a sua concretização mais completa nos formatos livro ou exposição? Porquê e como os pensa? 

LL: ” Depende de cada trabalho. A Escala de Cor das Coisas, por exemplo, é um projeto que sempre pediu o formato livro, é um trabalho que só tem seu sentido completo neste formato. O Conhecidos de Vista já não, vejo perdas e ganhos tanto no formato impresso quanto no formato de exposição. Eu tenho me interessado muito por instalações, trabalhos em grande formato, onde a relação com o corpo e a escala da imagem é importante. Transpor este tipo de trabalho para o formato livro é um desafio enorme, por que esta relação não é possível, então acaba mudando a natureza do próprio trabalho. Por isto acho que depende muito de cada projeto. Como designer, eu gosto do desafio de pensar um projeto no formato livro, mas não acho que seja sempre a melhor forma de apresentar.”

MM: Que vertente é mais importante para si na construção do objecto final livro ou exposição: a eficácia global do design ou a construção de uma narrativa “poética” e logo pessoal?

LL: ” Acho que as duas andam juntas, não há eficácia de comunicação se não há nada para comunicar, certo? Uma parte é dependente da outra e elas devem funcionar juntas. O design deve auxiliar para que o poético seja materializado e compartilhado da melhor forma.”

Livro “Conhecidos de vista”. ©Letícia Lampert. 2020

Recebidas as respostas, volto a olhar para as imagens e para os textos da Letícia, para Janela Indiscreta, para W. Eugene Smith.

Letícia Lampert, artista que nasce em 1978 em Porto Alegre no Brasil, constrói em Conhecidos de Vista um trabalho de continuidade face a este passado imagético! No seu artigo O artista como etnógrafo de um não-lugar, Letícia aponta a chave para o entendimento do seu trabalho: a etnografia ao serviço da arte, tal como foi preconizado pelo crítico Hal Foster na busca de entendimento dos não-lugares antropológicos, definidos por Marc Augé.

Nas imagens de Lampert, um primeiro encontro visual voyeurístico com os vizinhos anónimos dá lugar ao contacto antropológico de descoberta e partilha do mundo do outro. Através da palavra e partilhando as suas memórias e vivências, esse outrora desconhecido sujeito assume-se narrador na primeira pessoa. A partir do outro descobrimo-nos sujeito!

Numa espiral que se completa, a partir da alteridade vamos olhar o ponto primeiro de observação: o reduto seguro do fotógrafo. Para de seguida recomeçar todo o ciclo; num paradoxo de início, fim e continuidade, que me conduz sempre para a obra de Duane Michals, Things are queer !

“Things are queer”. ©Duane Michals. 1973

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