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Anotação quatro

Nível três, de circulação livre embora firmemente orientado pelas regras do mercado bolseiro estético, num balanço entre a produção de obras e a validação pelos pares.

Nível dois, composto pelos ambicioso-cobiçantes da bolha balizante do nível três, em perpétuo estado crítico-pessimista, melancolicamente subservientes e cientes da sua natureza aspirante a.

Nível um, espaço dos criadores que produzem e vivem sem ligações aparentes de submissão, desprezo e/ou ambição aos níveis anteriormente citados.
( Mas há ainda outra hipótese, penso eu imbuída do espírito do nível dois!)

No nível três encontramos os criadores portadores de verdadeiro talento, essa dádiva etérea mas de aplicação concreta na máquina liberal contemporânea. No nível dois encontramos os criadores dedicados embora destituídos da centelha divina. E no nível um, os criadores destituídos de talento mas também de apegos materiais vis.

Cindy Sherman. Untitled Film Still #48. 1979.

No seio do mercado da arte contemporânea – refiro-me à arte produzida e exibida no tempo presente, não tendo em conta a concepção da autora Aude de Kerros que considera a arte contemporânea como um género artístico de carácter estritamente conceptual, que surge no final dos anos 50 do século XX nos Estados Unidos como elemento da Guerra Fria – movem-se enquanto agentes fundamentais:  o artista, o crítico, o dealer /marchand de arte, o consultor de arte, o coleccionador, o especialista da casa de leilões e os especialistas de museus, directores e/ou curadores.

Partindo do esquema acima referido faço alguns ajustes à área da Fotografia e estabeleço uma possível configuração.

dealer de arte funde-se no papel de galerista e consultor e por vezes comissário e curador, nomenclaturas muitas vezes usadas de acordo com a preferência anglo-saxónica ou francófona do interlocutor, unem-se numa só figura também.

Assimilando-se por vezes o papel de director de museu ao de comissário, afigurando-se este último como agente central no mercado da fotografia contemporânea.

Defino então uma esquematização, ainda que simplificada, do funcionamento deste mercado.

Os comissários escolhem, promovem e estabelecem ligações entre os diferentes artistas e obras; os críticos analisam e acrescentam valor teórico às obras. Os comissários acumulam muitas vezes o papel de construtores de valor teórico, ao serem responsáveis pelos textos dos fotógrafos que promovem nas exposições que organizam.

Os galeristas assumem as funções de organizadores, agentes, dealers e mecenas, investindo, divulgando, promovendo, vendendo e em última análise lucrando ou prejuizando – Mia Couto style – consoante o nível de sucesso ou fracasso das obras e dos artistas que escolhem representar, mantendo uma necessária linha de diálogo com comissários e coleccionadores.

Os coleccionadores, privados e públicos, influenciados por críticos, comissários e galeristas, adquirem as obras dos artistas emergentes ou confirmados, com valor de mercado concreto ou possível. O gosto tornar-se-á um valor estético, balizado por uma série de factores externos que passam pela Academia, a crítica, a agenda mediática, não estando distanciada a ligação de todos estes factores a um possível valor de mercado.

A criação de grupos, correntes e paradigmas, representa para além de uma livre associação artística, a adição de valor acrescentado às obras e artistas.

Andreas Gursky. Shangai. 2000

À Academia cabe também o papel de criação de valor teórico em volta dos autores e das obras que são produzidas no seu seio, sendo relevante o tratamento dado aos argumentos históricos.

Se o trabalho de um artista/fotógrafo não estiver devidamente alinhado com a História, a estética, a crítica, os seus pares, a agenda mediática e as ciências sociais e humanas ( dado o carácter pós-moderno desta área de expressão), como se pode definir a natureza da sua criação e de alguma forma o percurso que irá tomar? Como aferir que tanto a obra como o autor continuarão a ter valor no futuro? E ao artista/fotógrafo, o que lhe cabe fazer no meio desta estrutura? Que impacto terá nas obras produzidas e expostas e na visão que estabelecemos do mundo e da criação?

E por último, nos dias pandémicos que correm e no que a seguir virá, o que se irá manter de tudo isto?

Ver Também


Sobre o mercado da arte:

BECKER, Howard S, Mundos da Arte, Lisboa: Livros Horizonte, 2010. ISBN 978-972-24-1585-9

HARRIS, Jonathan, Art, Money and Parties, Liverpool: Liverpool University Press, 2004. ISBN 0-85323-739-5

LINDEMANN, Adam, Collecting Contemporary, Koln: Taschen, 2006. ISBN 978-3-8228-4939-2

MELO, Alexandre, Arte e dinheiro, Lisboa: Editora. Assírio e Alvim,1994. ISBN 972-37-0373-4

 

Porto. Abril 2020.

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