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Anotação seis

Prólogo.

O estudo do pictorialismo fotográfico continua pertinente na contemporaneidade, dada a constância na busca de uma essência fotográfica que se tem definido entre a sua natureza mecanicista e artística. A génese do movimento pictorialista no final do século XIX, enquanto resposta ao advento do vernáculo e da fotografia amadora, encontra um paralelo no distanciamento da fotografia artística do início do século XXI face ao formato digital, popular.

Segundo Victor Burgin o meio pode ser pensado de forma tecnológica e fazer uma imagem é efectuar um conjunto de opções, tornando-se o conteúdo do trabalho a súmula das escolhas operativas e de sequenciação, numa atitude apelidada de formalismo, que advém do Modernismo de Greenberg.

Burgin alude também ao pós-modernismo fotográfico, afirmando que a fotografia permite-nos uma visão ilusória de aspectos do mundo em frente à câmara, conduzindo-nos a considerações sobre representação e narrativa. Pertencendo a Fotografia, segundo o autor Geoffrey Batchen, a todas as instituições e disciplinas menos a si própria.

Michael Fried desenvolveu um outro conceito, Near Documentary, enquadrado numa linha entre a tradição pictórica do tableau vivant e a fotografia documental contemporânea, num processo não mimético mas de encenação que contribui para tornar artístico o objecto fotográfico, tal como as impressões em escalas não análogas à realidade.

A imagem digital tem espaço no mercado quando alcança o futuro, ficção científica tornada já e utilizando uma estética positivista de classificação factual, definindo-se amadora quando parece reiterar os postulados pictorialistas, em particular quando adopta um discurso subjectivo e romantizado. O único reduto consensual da contemporaneidade, a impressão jacto de tinta em papéis fine-art com certificado de 100 anos de garantia.

 

Didascálias e réplicas.

Para além da busca ontológica, no balanço entre a natureza mimético-mecânica e a arte, como olhamos a plena democratização da criação fotográfica? Como se traça o caminho de um(a) fotógrafo(a) neste mar de imagens? Democratizar a Fotografia, o que quer isso dizer? E este agora, como se constrói? Em momento pandémico atravesso quatro espaços- galerias dedicados exclusivamente, ou em parte, à Fotografia no Porto e em Lisboa e com visões diferentes sobre o meio e o mercado.

A The Cave Photography foi criada pelo Rui Pinheiro, o Diogo Castro e o Miguel Refresco, em fevereiro deste ano, alicerçada numa comunidade de fotógrafos: Bernardo Sousa Santos, Cecília de Fátima, Dinis Santos, Fátima Abreu Ferreira, José Bacelar, Paulo Pimenta, Pedro Magalhães, Miguel Refresco, Maria Oliveira, Rui Pinheiro e Violeta MouraEnquadrados sob a égide da fotografia documental, entre o fotojornalismo de linhagem clássica humanista e um conectado com a pós-modernidade, passando pelo documental poético em torno da balada do quotidiano e a interligação possível entre a fotografia e a pintura.

“Funciona como um depósito, um arquivo/colecção que pode ser adquirido!” diz o Rui Pinheiro e continua: “Não se apresenta como uma galeria! São onze fotógrafos que estão em produção. À medida que fomos avançando, uma das questões que se levantava era em torno do edifício (onde se encontra a TCP), com classificação histórica pela Unesco. E as respostas foram surgindo em torno da natureza da estrutura: quando a muralha da cidade é derrubada para a cidade poder crescer para a zona alta, nasce este bloco de edifícios numa época em que a burguesia se instala na cidade e transforma esta zona num polo comercial importante. Espaço político também na Revolução Liberal e durante o Estado Novo. O nosso espaço encontra-se na zona de produção da Ourivesaria Miranda & Filhos, para protecção das peças. Apresentamos as nossas imagens no mesmo espaço, mantendo a mesma mensagem de rigor e cuidado.”

Dizer artistas e não fotógrafos: “É uma questão de nomenclatura. Um escultor, um pintor são artistas. O fotógrafo também. Fotógrafos que têm um percurso autoral construído. São fotógrafos que constroem uma narrativa distinta. Numa época de imagens, o traço autoral distingue estes fotógrafos. Para os que pensam a fotografia para lá da técnica, ligando a imagem ao passado numa linha sempre autoral. Tendo a fotografia um valor, que não é multiplicável infinitamente. Nesse sentido todas as provas de autor são de séries limitadas.”

Quanto ao legendar do fotojornalismo como arte: “Pretendemos democratizar este espaço. Englobar as escolas do Porto nas escolhas, as academias fotográficas. Autoral, documental, autobiográfico. Não há novidade nessa representação, é repor algo que já aconteceu em outros momentos. O desafio da junção é a contaminação sobre os diferentes processos de produção da imagem no contexto mais vasto possível.”

Uma visão sobre a fotografia portuguesa e portuense hoje?, pergunto. “É a representação possível de uma identidade, de uma construção fotográfica. O scouting é feito através de livros, redes sociais, da produção que cada criador vai acrescentando à sua colecção.” A The Cave Photography pretende criar uma conexão com escolas para fazer intercâmbios entre fotógrafos e as escolas. Estágios e formações no interior do espaço, residências, curadoria. Loja online. Agenciamento das provas existentes e de novas produções.” 

Sobre a exequibilidade de ser artista representado, comissário e galerista, o Rui avança: “Lido bem com isso. Há a preocupação maior em dar a prioridade aos restantes fotógrafos. (…) Esta é uma tentativa de resposta a esta luta de democratização. Pensamos que é uma forma de tornar visível o trabalho dos criadores e quebrar a seriação infinita. O serviço e obrigação que temos é o de contribuir para se adquira fotografia e depois se fale com paixão das imagens em colecção. “

Nos últimos dois meses, fechadas as portas e postos os olhos nas janelas, a The Cave Photography iniciou um projecto nas redes sociais intitulado “Da minha janela vejo o mundo- Estado de Emergência” e durante cada um destes dias, surgiu uma nova fotografia, de um novo criador. De todas as imagens publicadas, escolho a de Eduardo Gageiro. É uma imagem mise-en-abyme, simbólica do Portugal político nos últimos quarenta e seis anos e da Fotografia, em particular da dialética entre o laborioso- privado-analógico e o imediato- público – digital.

Sobre o impacto da pandemia na galeria e na forma de ver e negociar Fotografia, conversamos ainda: “Todos os projectos consolidados num espaço físico e de acesso público, devem agora passar por implementar novas estratégias. A forma segura de visitar a The Cave Photography, vai passar numa primeira fase pelos suportes digitais. Este estado de incerteza não concede espaço a qualquer programação a curto prazo. (…) Já era extremamente difícil vender fotografia de autor. Existe um público interessado em ver fotografia, em produzir imagens mas ou mesmo tempo, sem predisposição para adquirir provas de qualidade. O crescimento económico vai abrandar nos próximos anos e com ele uma enorme quebra no poder de compra.”

“Ainda tem sentido a fotografia?” pergunto. “Vai ter sempre. E agora ainda mais, vivemos numa sociedade global onde a comunicação é essencialmente assente na imagem”, diz o Rui.

“Puxos”. 2019 ©Cecília de Fátima

Em fevereiro de 2019 Pablo Berástegui abre o Espaço SP620- salut au monde!A galeria define a sua transversalidade de traço pós-moderno ao adoptar para nome o título do poema de 1855 Salut au Monde!, de Walt Whitman. O texto de Vera Carmo elabora e bem, o enquadramento ontológico da galeria.

Com exposições com curadoria própria: “pensar a contemporaneidade, contradições, paradoxos e paradigmas da nossa época, pensarmo-nos e ao nosso lugar no mundo (…) estabelecer diferentes possibilidades de relação com as imagens, a arte e com os outros.afirma-se no manifesto de intenções da galeria.

O espaço SP620- salut au monde tem edições especiais impressas para venda de fotógrafos já expostos na galeria, uma representação online de Luis Cobelos, Kovi Konowiecki’s e Bharat Sikka’s, um anuário-catálogo-livro-obra de arte e um trabalho pedagógico à imagem de um serviço educativo: “divulgar a fotografia contemporânea e documental junto de um público jovem; criar espaços de encontro e discussão em torno do trabalho de artistas contemporâneos provenientes de vários contextos sociais e culturais, que têm a fotografia como meio de observar, contemplar e inquirir a contemporaneidade; pensar as questões de alteridade através da prática fotográfica; fomentar o pensamento crítico e o interesse por fotografia contemporânea e documental; aproximar artistas e públicos, por meio de encontros, conversas e outras actividades.”, resume ainda o manifesto da galeria.

Quanto ao futuro imediato e segundo Pablo Berástegui: “Nos últimos dois meses que passei longe do meu projecto cuidando da minha mãe, a ordem das prioridades mudou completamente. No entanto, tive tempo para (…) procurar alternativas para o programa do ano, ajustar o calendário e outras etapas derivadas do fechamento e cancelamento de viagens e actividades. Também para ajudar amigos com os seus projectos pessoais. (…) Para os próximos meses, a minha ideia é continuar com o trabalho, da maneira mais fiel possível ao que tinha planeado, tentando melhorar os processos de trabalho e a qualidade das exposições e propostas. E, ao mesmo tempo, tentar reduzir o custo de cada amostra, não é um desafio fácil!”

Sobre o impacto da pandemia, afirma: “Estou muito preocupado com o futuro imediato da venda de arte, em particular a fotografia. (…) Vi muitos amigos oferecendo as suas imagens gratuitamente para arrecadar fundos para ajudar as pessoas que mais sofriam com a crise da saúde a preços muito competitivos, mas mesmo sob essas condições, as vendas pareciam residuais. Penso que o medo não vai ajudar a venda de fotografia, que dificilmente conseguiu se destacar no mercado de arte devido ao seu estatuto de obra altamente reproduzível. Aquelas pessoas que poderiam apoiar um projecto como Salut au monde! ou se dispõem a gastar uma parte da sua renda para comprar uma obra de arte fotográfica e, as que ainda estão em condições económicas para continuar a comprar obras, julgo que reservarão esses recursos para tempos melhores. Portanto, um dos objectivos dessa nova etapa é ajudar os criadores sem cair na insolvência. (…)”

” Out of the way”. 2016 ©Elena Anosova

 

Em 2015 Sara Santos inaugurou no Porto um franchising da francesa Yellow Korner, galeria criada em 2006 por Alexandre de Metz e Pierre Kosciusko Morizet com o objetivo de “democratizar a fotografia, torná-la mais acessível ao consumidor comum.”

Uma galeria estruturada em online e físico, com categorias que relevam duma fotografia humanista e apreciada pelo fotógrafo amador ao longo do século XX e que pelo seu carácter generalista, albergam um pouco de toda a produção fotográfica mundial: da paisagem à moda, passando pelas viagens, o desporto e o urbano. Com revista, laboratório (para impressão e moldura), guia de apoio ao franchising, trata-se de uma estrutura empresarial oleada, que alimentava cerca de 80 galerias distribuídas pelo mundo. Tal como os outros espaços abordados, galeria e fotógrafos por norma partilham uma grelha de percentagem na venda da obra. As dúvidas sobre os valores a pagar aos fotógrafos pela estrutura mãe, tinham anteriormente suscitado alguns textos a nível internacional (ver aqui e aqui) sendo interessante continuar a pensar na questão do início: a quem serve a democratização da Fotografia?

Por último, referência neste texto para A Galeria das Salgadeiras, que abriu no ano de 2003 em Lisboa, pelas mãos de Ana Matos. A partir da comunicação interna da galeria, podemos enquadrar esta galeria numa lógica conectada com a transversalidade pós-moderna, sendo afirmada a sua dinâmica internacional nos artistas representados mas também nas parcerias: “tem vindo a desenvolver o seu programa em torno da fusão de expressões e géneros artísticos e de uma contaminação positiva com outros territórios do pensamento e sensibilidade, como a Literatura e a Poesia. (…) estabelecer parcerias e criar pontes com outras instituições culturais, a nível nacional e internacional.” Actualmente na área da Fotografia as Salgadeiras representam Cláudio Garrudo, Eva Díez, Inês d’Orey colaborando com Antoine Pimentel, Augusto Brázio, João Francisco Vilhena, Jordi Brunch, Paula Almozara e Rene Kubasek.

Os fotógrafos representados apresentam obras que se enquadram numa lógica de pós-modernismo fotográfico no âmbito da fotografia documental. A partir do real, o discurso visual criado é enquadrado muitas vezes no âmbito de outras linguagens estéticas como a escultura, a pintura e a literatura.

O pensamento da galeria em torno desta democratização da Fotografia, encontra-se expressa da seguinte forma: “alinhada com o pensamento da arte como um bem público, criámos o Grupo Amigo das Salgadeiras que facilita a aquisição de obras de arte (…)”. A galeria promove igualmente a criação de pensamento e obra curatorial a partir do seu Arquivo: “na iniciativa Galerista por um dia convidamos pessoas de outros territórios a definirem o seu próprio discurso expositivo, a partir do nosso Acervo e de obras dos artistas que são representados ou colaboram com a galeria. “

Apesar de ter contactado ambas as galerias, não consegui obter os seus pontos de vista sobre o momento actual.

Ver Também

“Peso Morto”. 2018 © Inês D’Orey

Epílogo.

Alguns espaços culturais poderão voltar a abrir em Portugal hoje, segunda-feira dia 18 de maio de 2020, momento adequado para publicar esta pequena reflexão sobre o presente. Quando se fala da democratização da Fotografia, recorrentemente alude-se ao alargamento do espectro de compradores da Fotografia enquanto objecto artístico não parecendo existir sempre um efeito inequívoco entre esse facto e a condição do fotógrafo. Manifestamente existe um aumento do número de produtores de imagens fotográficas e uma proliferação e amálgama das variáveis já existentes: comercial, artístico, profissional, amador. Sendo também visível um acréscimo do número de estudantes em instituições académicas ou estruturas informais de aprendizagem da arte fotográfica e dos conhecedores – em graus diversificados- das diversas estéticas e do que parecem ser as diferentes histórias da Fotografia.

Em Portugal, existem diversas estruturas colectivas tais como a APPimagem- Associação Portuguesa dos Profissionais da Imagem, a APAF- Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, a ANIF- Associação Nacional de Industriais da Fotografia, a ALFA – Associação Livre de Fotógrafos do Algarve, a AFAA– Associação de Fotógrafos Amadores dos Açores, a AIP- associação de directores de fotografia em cinema, a APimprensa– Associação Portuguesa de Imprensa e a APIGRAF-Associação Portuguesa das Indústrias Gráficas e de Papel, o Sindicato de Jornalistas que representam um vasto conjunto de profissionais.

Talvez este momento global de staccato seja compatível e adequado à criação de um sindicato, ordem ou grémio que agregue todo(a)s, ou parte considerável, do(a)s que trabalham no contexto da Fotografia em Portugal, englobando necessariamente o Ensino da Fotografia, o(a)s fotógrafo(a)s em contexto artístico e as estruturas dedicadas à sua divulgação e comercialização. Para lá da dicotomia técnica e arte, das derivas enquadráveis na diferenciação clássica entre artes maiores (Beaux Arts) e artes menores (artes aplicadas), ultrapassando a lógica pós-industrial de luta de classes, que separa povo e elites, trabalhadores manuais e intelectuais.

Porto. Maio 2020.

 

P.S. Um agradecimento ao Pablo Berástegui e ao Rui Pinheiro pelo tempo dedicado a responder às minhas questões. As respostas das restantes galerias contactadas serão incluídas neste texto, caso cheguem. Boa sorte a todos e obrigada!*

 

 

Batchen, G. – Burning with desire- The conception of photography. Cambridge. Mitt Press. 1997.

Whelan, R. – Stieglitz on Photography, His selected essays and notes. New York. Aperture. 2000

Victor Burgin citado em Bate, D.- Photography the key concepts. New York. Berg. 2009.

Fried, M.- Why photography matters as art as never before. New Haven-London. Yale University Press. 2008.

 

 

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