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Anotação sete

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A ARCOLisboa2020, a feira internacional de arte contemporânea que funciona em Portugal desde 2016, decidiu adaptar a edição deste ano a uma versão on-line com a duração de quatro semanas entre 20 de maio a 14 de junho. Através do seu sitio  apresentam e comercializam obras das galerias seleccionadas pelo Comité Organizador da feira e pelos comissários das secções Opening e África em Foco, numa parceria com uma plataforma denominada Artsy.

Segundo o dicionário online Collins, artsy tem o mesmo significado que arty e que se aplica a: ”alguém que é arty parece muito interessado em ficção, cinema, música, poesia ou pintura. É descrito como arty alguém que é pretensioso.” Nomenclatura portanto particular para uma organização que pretende organizar, divulgar, comercializar, provavelmente também pensando nos valores de democratização, a arte no mundo. Empresa criada há cerca de dez anos por Carter Cleveland, homem da área da informática, contava antes do início da pandemia com cerca de 200 empregados em três continentes, tendo como colaboradores principais e accionistas, magnatas do mundo inteiro, muitos dos quais dividindo esta árdua tarefa com outras empresas globais como o twitter ou a Gafan facebook.  Os números antes de março de 2020 eram impressionantes: parcerias com mais de 3 mil galerias de arte no mundo e com instituições como a Christie’s e Sotheby’s. Vinte milhões de dólares mensais de vendas e dois milhões de visitas únicas por mês. Tudo isto segundo um artigo que explora a vida e os números que envolvem uma CMO brasileira desta empresa (chief marketing office– director de marketing) e que afirmava que esta estrutura “oferece arte de uma forma acessível online e que funciona também como espaço de mercado para compradores mundialmente. “

Referência  ainda para a manta de retalhos ontológica que subsiste à sistematização criada por esta plataforma sob o nome The Art Genome Project e que me parece muito reveladora do projecto. Uma tentativa de enciclopédia, The Story of the Art de Ernst H. J. Gombrich mas sem uma clara validação científica atribuída por uma Academia ou grupo de teóricos da imagem! Apoiada também por um blog– revista na qual se analisam várias das temáticas que sustentam depois as escolhas estéticas apresentadas.

Quanto à ARCOLisboa, as galerias e museus conectados à Feira podem ser consultados aqui. As exposições e naturalmente a venda das obras acontecem na plataforma global. Nas palavras da organização: “através da plataforma Artsy os coleccionadores e amantes de arte contemporânea vão poder explorar a selecção de obras, que cada galeria participante preparou especialmente para este projecto digital. Nesta secção, será dado destaque às escolhas de um grupo de curadores e coleccionadores convidados para a Curators and Collectors Pick, entre os quais os curadores Luiza Teixeira de Freitas, Bruno Leitão e João Laia.”

Recorrendo à informação divulgada pela feira, fonte de todo o artigo de vinte de maio do jornal Público, participam nesta edição as galerias portuguesas Cristina Guerra Contemporary Art, Filomena Soares, Pedro Cera e Vera Cortês para além da Balcony, Bruno Múrias, Madragoa ou Nuno Centeno.

A secção Opening, organizada pela primeira vez pela instituição independente, mas com apoio da DGARTES, Kunsthalle Lissabon, é composta por uma selecção de galerias estreantes na feira. Tal como na edição de 2019, a curadora Paula Nascimento é responsável pela selecção das galerias do programa África em Foco.

“Ibeji Series”. 2019. ©Stephen Tayo. Representado pela galeria ©Movart

Numa entrevista em 2019 ao Diário de Notícias, a curadora afirmava que tinha sido necessário “na escolha final quebrar a questão linguística (do português) e trazer práticas de outros países africanos”. Esta questão, entende-se ao longo da entrevista, não acontece por uma problemática inerente à língua portuguesa, mas sim pelo facto de países como o Uganda e a África do Sul de expressão oficial inglesa e suali  (Uganda)  e no caso da África do Sul sendo consideradas como oficiais um conjunto de onze línguas e tendo o português o estatuto de língua protegida dado o número de falantes que se encontram nesta região, estes dois países são neste momento e em termos de arte contemporânea mundial muito expressivos e pujantes, provocando maior interesse nos mercados globais do que a produção proveniente ou sediada nos PALOP. Ainda no mesmo artigo e questionada sobre as dificuldades encontradas no processo, a curadora Paula Nascimento afirmou que “Portugal é ainda um mercado de arte muito periférico” e “a participação das galerias teve de ser negociada.” Imaginando-se que mais uma vez se refere às galerias sediadas no Uganda e na África do Sul, dado que muitas das galerias com base em Angola e Moçambique e agora presentes nesta feira representam também muitos artistas portugueses ou artistas africanos que vivem em Portugal. As galerias presentes no programa África em Foco são a Afriart de Uganda, a Arte de Gema de Moçambique, a Jahmek de Angola, a Momo da África do Sul, a Movart de Angola, que representa o fotógrafo Stephen Tayo a quem regressarei em breve e a This is not a White Cube de Angola.

O Fórum da ARCOlisboa contará com uma média de três conversas semanais transmitidas em directo e incluem artistas como Nadia Belerique ou Diana Policarpo, em conversas dirigidas pelos comissários João Mourão e Luís Silva da Kunsthalle Lissabon, Paula Nascimento e Filipa Oliveira. Os curadores João Ribas, envolvido há cerca de dois anos na polémica em torno da exposição do fotógrafo americano Mapplethorpe em Serralves, e Miguel Mesquita vão por sua vez analisar as instituições portuguesas e a realidade da arte contemporânea em Portugal. O curador brasileiro sediado em Espanha Tiago de Abreu Pinto, estabelecerá um diálogo com os coleccionadores de arte Armando Cabral e António Cachola. Este programa contará com a colaboração da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto e de Tobi Maier, o director alemão das Galerias Municipais da Egeac desde 2012 e será completado com conversas sobre publicações de arte contemporânea dirigidas pela Arts Libris, editora sediada em Barcelona, Madrid e agora Lisboa.

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A edição on-line da feira conta com os apoios da Fundação EDP e a informação oficial agradece igualmente à produtora responsável pela equipa de representação local da ARCOLisboa, Rita Sousa Tavares, filha do autor Miguel Sousa Tavares.

A organização afirma ainda que este ano não será possível executar o habitual programa paralelo de visitas a exposições e eventos em parceria com as principais instituições culturais de Lisboa e arredores, mas para superar este facto foi realizada uma selecção das plataformas de alguns destes espaços, em especial dos que contam com visitas virtuais muitos deles desenvolvidos durante o período de encerramento dos museus.

Em forma de conclusão, espaço ainda para pensar que esta feira co-organizada pela IFEMA (Feria de Madrid) e pela Câmara Municipal de Lisboa e que naturalmente coloca o foco no estabelecer e fomentar da actividade económica na área artística, sendo que a circulação do trabalho artístico e a justa venda e pagamento pelo mesmo a todos agrada, coloca também o foco no facto do intermediário essencial no processo de exibição e de compra ser privado e com as proporções de gigante económico da ARTSY, podendo parecer preocupante e próximo de um exercício liberal de investimento público para lucro privado que conhecemos bem os resultados em outras áreas estratégicas em termos económicos e sociais, em Portugal e no mundo.

© 2020 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA.

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