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Anotação treze

Anotação treze

Balanço Final[1]

©Gisele Freund. Simone de Beauvoir. 1948

Alguns trabalhos e autoras presentes no Festival Instantes 2021[2] encaminham-me para esta anotação; parcial e pessoal dado que participei enquanto fotógrafa no festival sob o nome Mademoiselle Marçal.

Que relevância em termos políticos, sociais, artísticos, para lá de ser uma forma possível de selecção, terá o critério de serem exclusivamente de mulheres os trabalhos apresentados? É a questão que me atravessa durante os meses que distam entre o festival e o agora e que me pousa a caneta na mesa. Sem argumentos simplificados a resposta binária não chega.

Sou uma portuguesa de classe média baixa que estudou sempre na escola pública e que cresceu alimentada e guiada pela liberdade física dos campos abertos da aldeia em Portugal dos anos 80 e pela independência social, cultural e política do pós-68 e pós-74.

Sendo impossível não elencar as questões abrangentes que influenciarão essa vivência individual: o Mouvement de libération des femmes; o Women’s Lib; a revisão constitucional de 1977 em Portugal; as escritoras que construíram a minha adolescência: Simone de Beauvoir, Irene Lisboa, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Anais Nin, Virginia Woolf; a figura política de Maria de Lourdes Pintassilgo e todas as mulheres e homens – mãe Ilda e pai Maciel em primeiro lugar- que me educaram ao longo da infância e adolescência.personificada na sensação e afirmação plenas de que eu posso ser, fazer e ir onde quiser!

Há alguns meses que o livro “La domination masculine n’existe pas” de Peggy Sastre me acompanha; pensamento científico independente, documentado e pouco alinhado.

“ Je ne suis pas féministe si un telle entreprise signifie une simples inversion des terms du conflit sexual et pas son annihilation (…) Rien ne m’intéresse moins que de partir en guerre contre des privilèges si le bute est l’instauration d’un nouvel “ ancien regime”.

Instalo-me no texto e avanço: o que para já sei é que também a mim não me interessa qualquer estrutura de pensamento que assente na inversão dos termos dos conflitos, ou seja, a mudança no agente opressor e não a aniquilação da própria opressão. E que se aplica a ativismos sentados ou qualquer opção centrada na parte.

Volto ao festival e a uma primeira conversa com a Alice WR. Convidada pelo fundador e director do Festival António Pereira Lopes, que pretendia realizar uma edição exclusivamente dedicada ao trabalho de fotógrafas, para elaborar a curadoria desta oitava edição do Festival.

Anoto aspectos que guiaram o trabalho de Alice: “Não sou curadora. Estou a fazer a curadoria desta exposição!”

Com formação base na área da psicologia, envolvida na produção fotográfica e também de forma informal no desenvolvimento de projectos fotográficos há alguns anos, neste pensar os trabalhos dos outros trazendo-lhes uma leitura externa.

“O jogo com a materialidade das imagens! (…) “Colocar as boas questões, para as pessoas pensarem a sua fotografia.”

De 30 abril a 30 maio de 2021, vinte exposições heterogéneas temática e territorialmente, quatro conversas online com fotógrafas, quatro sessões temáticas de exploração da fotografia, com foco na apresentação de projectos; três workshops com cerca de vinte e cinco participantes; duas sessões de foto-livros; uma conversa aberta e a homenagem póstuma a Rodica Tanase[4] fizeram o festival.

A curadora partiu ao encontro duma fusão entre fotógrafas, pensando criticamente todo o processo fotográfico, centrando-se na qualidade dos trabalhos e nas narrativas que comportam.

“Destacar a auto-consciência e a reflexão crítica que cada trabalho traz. O que não se vê, o sentido que pode estar implícito: o simbólico, o não literal, assim como o lado formal também: as técnicas, os processos de trabalho, os processos criativos. E a presença das mulheres no mundo da fotografia, não necessariamente acentuando o manifesto feminista, mas negando a sua invisibilidade.”

No espaço da exposição e através do catálogo descubro alguns trabalhos que me interessam e com eles as suas criadoras. Foco esse conectado com o meu trajecto profissional que atravessa o fotojornalismo numa primeira fase, a fotografia de cena e projectos pessoais que comportam uma certa dose de realismo e de poesia, elementos sempre subjectivos.

No trabalho de Carmo Diogo[5] a junção entre a fotografia, o arquivo, a memória, a pintura e a escrita. A presença das artes gráficas e as artes e ofícios, por influência do design, da pintura e das artes do fogo no percurso desta autora. A ligação que as imagens e a encenação expositiva buscam entre uma atmosfera de passado e a intimidade, num diálogo que se estabelece entre o espaço íntimo e o público, o doméstico e o exterior.

Cecilia Sordi Campo[6] e o encontro no espaço visual entre o documentário e o diário, entre o universal e o íntimo, numa unidade cromática e de tratamento que une as imagens, o corpo humano na paisagem, os peixes na água, o céu via láctea, o pássaro que voa, a neblina , o coelho morto.

O contar de uma história em cada uma das imagens, cenas possíveis de um mesmo filme. A autora aponta um universo onírico, eu conduzo-me até à plasticidade de David Lynch e ao caráter surrealista da realidade, numa imersão entre os planos da mente.

Em Celine Croze[7] a influencia pictórica de Alan Harvey e de Antoine d’Agata. O género de reportagem que caminha para um pós-documental, unindo todo o espaço subjetivo do fotógrafo. Surgindo a partir da realidade uma visão não objetiva, não factual, mas sempre narrativa.

As paisagens de Gabi Pontes[8]: espaço aberto e limpo no tratamento e alinhamento, composto numa aparência de espelho que cria desdobramentos visuais através da água, do céu, das nuvens. Algumas imagens emocionam-me.

O olhar fotográfico que devolve a formulação complexa que a natureza estrutura.

Queila Fernandes[9] e a aproximação ao fotojornalismo, à reportagem na sua essência, ou na essência do que eram para mim, análise nostálgica certamente, estas áreas quando as descobri enquanto estudante no final dos anos noventa.

Retratos limpos, luz, sombra, pessoas, o espaço, o campo, a água, as famílias, os laços do quotidiano. A vida!

Susana Gonçalves[10] e a materialização fotográfica de como a banalidade do dia-a-dia pode conter uma camada de extraordinário. Série de imagens de carácter plástico, de transformação do quotidiano, que ultrapassam a estrutura cénica e o enquadramento teórico propostos.

Susana Moreira[11] e as ligações possíveis de estabelecer entre a fotografia, a pintura e a escultura. Penso na experimentação pictórica geométrica no interior de e com as imagens de Olafur Eliasson. Mas nesta autora parece estar em aberto a busca de combinações possíveis entre campos artísticos.

De forma individual e para lá do contexto do festival continuo a questionar: qual o caminho da fotografia no tempo presente, entre amadores e profissionais, trabalho artístico e comercial, documental, moda, auto-exploração fotográfica?

Parecem-me existir cada vez menos linhas de demarcação entre espaços e autores. Importante apenas a validação dos seus pares, o que de forma geral pode ser entendido como uma balança de carácter aparentemente democrático. Será assim mesmo?

Que paradigmas estéticos e teóricos atravessam os trabalhos fotográficos: formalismo, neo-pictorialismo, reportagem, abordagens pós-modernas transversais, terapia fotográfica? Em cada universo, um pouco de cada, assim como um espaço subjectivo de traços estranhamente homogéneos.

 

Ana Pereira.

Capuchos.

Setembro 2021

 

 

[1] Título do terceiro volume da auto-biografia de Simone de Beauvoir. Beauvoir, Simone. Balanço Final. 1980. Paris. Livraria Bertrand

[2] https://www.instantesffa.com/, 30 abril e 30 maio de 2021

[4] https://www.instantesffa.com/homengem-a-rodica-tanase/

[5] http://www.instantesffa.com/carmo-diogo/

[6] https://ceciliasordicampos.com/

[7] http://celinecroze.com/

[8] https://www.instantesffa.com/gabi-pontes/

[9] https://www.instantesffa.com/queila-fernandes/

[10] https://www.instantesffa.com/susana-goncalves/

[11] https://cargocollective.com/susanamoreira/susana-moreira

 

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