A Ler
anotação um

anotação um

Cresci a ver a imagem fotográfica, a outra que não a da memória pessoal e familiar, impressa em livros e revistas que pela possibilidade de escolha do tempo contemplativo adequado sempre me pareceram os suportes que melhor a serviam.

Do fotojornalismo e da fotografia documental, primeiramente mostra e prova do real e no tempo presente discurso a partir do real, alinho aqui uma pequena narrativa.

  1. As imagens de Jacob Riis de uma sociedade que se (des)constrói numa pós-ruralidade industrializada. As imagens de guerra de Roger Fenton e Mathew Brady e a primeira visão bélica sem o esfumado da ilustração. O repórter Joshua Benoliel e as imagens de um Portugal em pleno movimento político e social no início do século XX. E por último, a Farm Security Administration nos anos 30 do século XX e uma fotografia que une mundos distanciados, dando voz a quem não a tem.
Efeitos do assalto ao jornal A Nação. 1913 ©Joshua Benoliel

2. O desenvolvimento da imprensa escrita serve uma sociedade industrializada e urbana, crescendo o espaço para a imagem fotográfica. O registo(in)discreto do quotidiano com as primeiras máquinas fotográficas de pequeno formato. Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, George Rodger e David Seymour, a criação da agência Magnum e o reconhecimento do papel do fotojornalista, num restabelecer do elo entre a obra fotográfica e o seu autor.

3. O pós-segunda guerra mundial, o crescimento da publicidade na imprensa escrita e do fotojornalismo empenhado. Período que se estende até ao final dos anos oitenta do século XX e à implementação da tecnologia fotográfica digital, que conduzirá a uma mudança de paradigma e consequente declínio da imprensa escrita.

4. A internet, acompanhada de novas ferramentas de transmissão vem tornar imediato o evento noticioso. Define-se um modelo freelancer por oposição às estruturas colectivas de imprensa, num cruzar de espaços entre o profissional e o amador.

Zona. 2001 © Carl De Keyzer (www.carldekeyzer.com)/Magnum Photos

5. Com a proliferação de dispositivos fotográficos e a rapidez de partilha de dados surge o jornalismo cidadão, a ideia romântica e democrática de que, qualquer um pode partilhar o que está a viver com o resto do mundo, aqui e agora. Ideia assimilada pelos meios de comunicação social num momento de viragem do ato jornalístico: o cidadão comum torna-se sujeito, narrador e mensageiro da notícia. Devido às questões éticas relacionadas com uma prática apelidada de jornalística e sem o adequado enquadramento deontológico, será adoptado o termo cidadão colector de notícias.

6. A redução nos orçamentos da imprensa escrita, para o financiamento de reportagens fotográficas de investigação, é acompanhada pela vontade de atingir um público conectado e que por influência do cinema blockbuster e dos jogos vídeo deseja visualizar conteúdos noticiosos que a essas dinâmicas se assemelhem. Surge o conceito de jornalismo multimédia. Prática de construção de narrativas jornalísticas assente na união do som, do vídeo, da fotografia e da edição. Nos últimos dez anos novos segmentos foram criados no domínio das produções lineares e interactivas.

7. Devido a uma hierarquia de prioridades entre a população conectada, que coloca em primeiro lugar o entretenimento, depois a sociabilização e em terceiro lugar os conteúdos informativos, as temáticas documentais com tratamento cross-media presentes nas plataformas independentes e nas da imprensa tradicional, possuem características comuns. São atravessadas por técnicas de narrativa cinematográfica tais como: união da imagem fixa à imagem em movimento, junção de imagem real e imagem animada, acrescida das múltiplas possibilidades da imagem+som+ montagem, procurando atrair as audiências no segundo inicial de contacto.

Lisboa: cidade triste e alegre. 1960 ©Vitor Palla e Costa Martins. Pierre von Kleist (https://www.pierrevonkleist.com)

8. Nos últimos cinco anos tem-se assistido a um enquadramento e redução das narrativas multimédia nos canais e plataformas dedicados à Fotografia. O carácter teórico especializado dos conteúdos tem sido colocado em destaque tal como o incremento do interesse académico, artístico e comercial em torno do livro fotográfico.

A agência Magnum repensou a forma de apresentação e divulgação das obras dos seus fotógrafos, aproximando-se de um laboratório-galeria de pesquisa estética e académica, ao qual se agrega a comercialização de pequenas edições de provas de autor e provas para exposição.

A ideia da investigação teórico-prática é o caminho que a Aperture há muito traça, fundação que tem por objectivo a edição fotográfica.

Em ambas as estruturas, a imagem fixa voltou a ganhar espaço e importância, o mesmo acontecendo ao texto, em muitos casos com bastante densidade teórica e dimensão. Numa abordagem estética e teórica herdeira das revistas de especialidade e dos livros fotográficos.

Ver Também


Great Leap Forward. 2019 ©Thomas Sauvin (http://www.beijingsilvermine.com/great-leaps-forward)

9. Algumas questões têm sido pensadas e desenvolvidas em torno do livro fotográfico em particular no que concerne o financiamento, a produção, a compra e visualização. Expressões e práticas como print-on demand, edição de autor e distribuição online tornaram-se comuns.

Antes do mundo 2.0, era prática comum a edição limitada de livros auto-financiados, procurando os artistas posteriormente via postal, angariar compradores. Não assistimos portanto a uma mudança de paradigma em termos de política de produção artística, mas sim da aplicação de conceitos existentes a um novo meio de circulação e distribuição.

Para fotógrafos emergentes, consagrados e amadores, plataformas fotográficas históricas ou recém-nascidas, o livro fotográfico desenha-se como objecto essencial da prática criativa. Tão primordial para a afirmação artística, estética, histórica e/ou política, como cénicas são as exposições que os teatralizam.

Enghelab Street- A Revolution Through Books: Iran 1979-1983. 2019 ©Hannah Darabi

Da obra multimédia à obra impressa, passando pelos espaços narrativos híbridos e objectos artísticos tangíveis, começa mais uma vez a desenhar-se o destrinçar das práticas de amador, profissional, artístico, comercial, público e privado, que por momentos se desvaneceu.

Uma pequena e artística luta de classes. Fim e ponto de partida.

Porto. Março de 2020.

© 2019 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA. ALL RIGHTS RESERVED.

Ir para o topo