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Uma outra travessia

Nesses dias da quarentena tenho pensando muito nos planos antigos, nos sonhos antigos, tentando imaginar o que ainda é possível nessa vida. Não foi só o coronavírus que mudou meus horizontes, deixar o Brasil veio logo antes e foi uma mudança de proporções enormes.

A última grande reavaliação que fiz de tudo foi há uns anos quando preparava o livro Travessia para publicação. O livro nem tinha esse nome ainda, mas aquele trabalho tinha sido feito com um filme que estava vencido havia 20 anos. A história dessa lata de Fomapan se confundia com a minha. Seu vencimento tinha sido no mesmo ano em que eu comecei a fotografar. Me encontrei lembrando de coisas que tinham acontecido lá pelos idos de 1991 a 1993, meus primeiros anos na fotografia. Depois comecei a listar tudo que tive que aprender nos anos que me trouxeram até 2011 a 2013 para poder lidar aquele filme e seus desafios. Travessia nasceu disso, dos fatos e dos aprendizados que tornaram aquele livro possível.

Decidir imigrar mesmo sem coronavírus traz uma série de desafios, mas no fim de 2018 decidimos fazer isso em família. Durante aquele ano havíamos debatido diversos pontos ligados a essa mudança, coisas concretas como o que fazer com a poltrona que herdei da minha vó ou onde guardar nossos negativos de uma vida inteira. Uma outra série de questões não precisaram ser debatidas, as mais abstratas como o que faríamos por aqui ou será que ainda havia algo que pudéssemos fazer para evitar a mudança. Pensávamos em fazer o que sempre fizemos (coisas ligadas à fotografia) e para a segunda questão não tínhamos uma resposta, apenas uma sensação de que não havia mesmo outra solução.

Antes de atravessar o Atlântico tivemos que nos libertar de uma série de coisas. Esvaziar nosso estúdio onde atendíamos as noivas e noivos, onde estavam meus queridos scanners monumentais, minha coluna de reprodução, minha impressora recém-convertida para tinta de carbono e outros diversos equipamentos recolhidos do lixo naquela megalópole. Tive que desmontar meu laboratório. Pela primeira vez desde que comecei a fotografar não tinha mais onde revelar meus filmes. Comprei mais HDs para fazer ainda mais uma cópia de tudo que pretendia carregar comigo. Me desfiz de câmeras que tinha escolhido cuidadosamente durante anos, não foi fácil, mas fui ficando mais leve para a viagem e curiosamente acabei me acostumando com esse processo de desapego. Um outra travessia, uma nova série de aprendizados.

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postal impresso em carbono na vitrine da Livraria 100ª Página

Dos anos em que morei no Canadá tirei algumas ideias para facilitar minha própria chegada a Portugal. Olhei para as atividades que eu promovia em torno da comunidade fotográfica no Brasil: as feiras analógicas FRoFA, as entrevistas do programa Foco Crítico, as oficinas sobre coisas esquisitas como o CCD linear. Nasceu assim a ideia das entrevistas em vídeo para Fotografia Portuguesa. Algumas outras ideias foram postas de lado por uns tempos. Do outro lado, sem ter meu laboratório comigo, corri para encontrar uma outra impressora que pudesse converter para carbono. Confesso que acompanhei com uma certa inveja as experiências de quem ainda tem laboratório p&b durante a quarentena e com um gosto especial as daqueles que aproveitaram esse retiro para descobrir o prazer de ficar sob a luz vermelha debruçado sobre umas banheiras fedidas.

Converti uma Epson 1400 para aceitar um jogo de 6 tons de carbono e comecei a fazer minhas primeiras cópias desde que cheguei. Foi a terceira impressora que eu converti e foi muito prazeroso o processo. Tratei de imprimir uns postais com imagens daqui de Braga, dos meus primeiros passeios pela cidade. Foi um passo importante para restabelecer o movimento de refletir, fotografar e imprimir. Vou me organizar para compartilhar mais sobre esse processo com a tinta de carbono aqui nesse espaço.

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