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Alécio de Andrade, “um poderoso, delicado e inesquecível comentário lírico do mundo”

Alécio de Andrade, “um poderoso, delicado e inesquecível comentário lírico do mundo”

Alécio de Andrade é um dos nomes maiores da Fotografia brasileira apesar de ter sido Paris a cidade que abraçou para viver a grande parte da sua vida. Chegou à capital francesa em 1964 e lá viveu até à sua morte, nos primeiros dias de agosto de 2003. Hoje vamos recordar um pouco de Alécio de Andrade.

Alécio de Andrade (RJ, Leblon), 1964

Nascido no Rio de Janeiro em 1938, estudou direito, apaixonou-se pela escrita e publicou os seus primeiros poemas em suplementos literários cariocas. Recebeu, em 1961, o prémio de poesia da Primeira Semana de Arte Contemporânea da Universidade Católica do Rio de Janeiro. A sua relação com a escrita, com o piano e com o cinema nunca foi deixada ao abandono, mas foi com a fotografia que Alécio de Andrade criou a sua maior composição. Alécio fotografava em preto e branco, sem retoques e nem flash.

Carlos Drummond de Andrade (Rio de Janeiro, 1964) | © Alécio de Andrade

O grosso do trabalho do fotógrafo deixa facilmente perceber que foi Paris o palco ideal para o olhar singular de Alécio de Andrade, que Carlos Drummond de Andrade descreveu a 28 de fevereiro de 1964, depois de ter visitado “Itinerário da infância, a primeira exposição do fotógrafo, como “um poderoso, delicado e inesquecível comentário lírico do mundo”.

Foi aliás, ainda no eco do sucesso da mostra realizada na Petite Galerie e no ano em que o Brasil mergulhava num regime militar, que o fotógrafo nascido no Rio de Janeiro, à altura com 26 anos, seguiu para França e iniciou formação no Institut des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), em Paris, sendo o destinatário de uma bolsa atribuída pelo governo francês.

Correspondente da revista Manchete de 1966 a 1973, tornou-se membro associado da agência Magnum entre 1970 e 1976.

Paris (Grand Palais), 1975 | © Alécio de Andrade
Paris, 1966 | © Alécio de Andrade
Paris (Ile Saint-Louis), 1991 | © Alécio de Andrade

São inúmeros os elogios que podemos fazer ao brilhante trabalho de Alécio de Andrade e seriam também muitas as linhas de texto que poderíamos dedicar à importância que teve para a Fotografia e para o estilo “bressoniano” em particular, mas talvez seja o poema de Drummond que melhor descreve o fotógrafo na sua essência. Abaixo a transcrição (fonte: Escritas.org).

O Que Alécio Vê

A voz lhe disse ( uma secreta voz):
– Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por seu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro – e último – da vida.

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E Alécio vai e vê
o natural das coisas e das gentes,
o dia, em sua novidade não sabida,
a inaugurar-se todas as manhãs,
o cão, o parque, o traço da passagem
das pessoas na rua, o idílio
jamais extinto sob as ideologias,
a graça umbilical do nu feminino,
conversas de café, imagens
de que a vida flui como o Sena ou o São Francisco
para depositar-se numa folha
sobre a pedra do cais
ou para sorrir nas telas clássicas de museu
que se sabem contempladas
pela tímida (ou arrogante) desinformação das visitas,
ou ainda
para dispersar-se e concentrar-se
no jogo eterno das crianças.

Ai, as crianças… Para elas,
há um mirante iluminado no olhar de Alécio
e sua objetiva.
(Mas a melhor objetiva não serão os olhos líricos de Alécio?)
Tudo se resume numa fonte
e nas três menininhas peladas que a contemplam,
soberba, risonha, puríssima foto-escultura de Alécio de Andrade,
hino matinal à criação
e a continuação do mundo em esperança.

(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)
Paris (1965) | © Alécio de Andrade
Paris (rue Delambre, Montparnasse), 1965 | © Alécio de Andrade
Salvador-Dali e François-Marie Banier, Paris (Hôtel Meurice), 1971 | © Alécio de Andrade
Henri Cartier-Bresson (Paris), 1972 | © Alécio de Andrade
Maria Helena Vieira da Silva, Paris, 1967 | © Alécio de Andrade
Nova Iorque (Washington Square), 1973 | © Alécio de Andrade
Paris (Jardins do Luxemburgo), 1968 | © Alécio de Andrade
Paris (Quai de Conti), 1975 | © Alécio de Andrade
Paris (rue de Rivoli), 1977 | © Alécio de Andrade
Londres, 1991 | © Alécio de Andrade
Buenos Aires (La Boca), 1973 | © Alécio de Andrade
Carcavelos, 1975 | © Alécio de Andrade

O Louvre

A “série” mais longa de Alécio de Andrade é, sem qualquer espécie de dúvida, aquela que foi sendo desenvolvida ao longo de mais de 3 décadas de visitas ao museu do Louvre, com momentos perpetuados pelos flagrantes conseguidos e que passam a fazer parte de uma memória colectiva.

Abaixo destacamos alguns trabalhos de Alécio de Andrade.

Museu do Louvre (Paris), 1970 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1990 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1990 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1993 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1990 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1993 | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris) | © Alécio de Andrade
Museu do Louvre (Paris), 1993 | © Alécio de Andrade

Hoje recordamos Alécio de Andrade no EFE.

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