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Kostas Balafas, o rebelde no Épiro

Kostas Balafas, o rebelde no Épiro

Kostas Balafas (a grafia Costas Balafas é também comum) nasceu em 1920 na aldeia montanhosa de Hosepsi (hoje,  Kypseli), no Épiro, quatrocentos quilómetros a norte da capital Atenas.

Kostas nasceu no seio de uma família pobre e dedicada ao duro amanho das terras. Naquelas geografias, nas montanhas, num norte de terras áridas, as pessoas eram criadas e polidas para serem sobreviventes, tirando da terra o essencial para não perecerem.

Kostas Balafas pouco tempo ficaria pela sua aldeia natal. O seu pai entregou-o a um conhecido professor que o escoltou desde Arla até Atenas, onde um conterrâneo, dono de uma taverna na Praça Koumoundourou, conhecido pelo seu patriotismo e pela capacidade de acolher jovens em busca de uma vida um pouco melhor, lhe garantiu um futuro na capital grega. Um prato de comida e a promessa de trabalho em Atenas, eram sonhos suficientemente fortes para fazer um jovem rapaz sair da casa dos seus pais e dizer adeus a qualquer plano de infância ou adolescência que hoje, felizmente, já menos sabemos acontecer.

Kostas Balafas (autor desconhecido) nos tempos da resistência no Épiro enquanto membro do ELAS (ver p.f. abaixo)

Em 1931, então com onze anos, Balafas morava em Atenas onde conseguiu um emprego na então célebre pastelaria Delphi, na avenida Patission, essa ainda hoje muito famosa. Como tantos outros, trabalhava durante o dia e estudava à noite. O seu primeiro contacto com uma câmera, contou-o pelas próprias palavras, foi aos 13 anos. Quando alguns parentes do seu patrão o visitaram chegados dos EUA, o empresário levou-os numa visita aos pontos mais turísticos da Ática. Com os parentes que chegaram do outro lado do Atlântico chegou também uma pequena Kodak (talvez uma Kodak Brownie No.0), muito simples e fácil de manusear, que deveria ser usada para registar os momentos da família naquele período de reunião. Ora, como alguém teria necessariamente de segurar e acionar a câmera, Kostas foi escolhido pelo seu patrão para acompanhar a visita e fazer as vezes de fotógrafo oficial.

Podemos querer acreditar que o patrão viu em Kostas Balafas algo de especial, mas o mais certo é que seria provavelmente um dos funcionários que menos falta faria à casa no dia-a-dia e, consequentemente, um excelente candidato a fotógrafo. Há quem diga que ainda hoje é assim que muito fotógrafos são escolhidos, mas isso deverá ser apenas um exercício de má-língua. Seja como for, em boa hora o escolheu e hoje todos nós lhe agradecemos a decisão, tenha ela como nascença a fundamentação que tiver. “Quando percebi que aquela máquina que eu estava a segurar nas mãos podia registar o que tinha vivo na minha frente, fiquei encantado…” afirmou Balafas num pequeno texto biográfico publicado no seu livro “Kostas Balafas e a sua Grécia”.

A experiência daquele dia marcou-o para a vida. A compra de uma câmera tornou-se, então, um plano para o futuro.

Acabou por voltar para perto da sua cidade natal e chegou mesmo a estudar em Itália. Em 1939 voltou à Grécia, trabalhando em Janina, relativamente perto da aldeia onde nasceu, numa altura em que a Segunda Guerra Mundial se anunciava brutalmente ao mundo. Enquanto estudava em Janina (Ioannina), conseguiu finalmente comprar uma Kodak Junior e aprendeu a arte da revelação e impressão com Apostolis G. Pantazidis, um fotógrafo profissional da cidade. Este conhecimento definiu muito do resto da sua vida.

© Kostas Balafas, Metéora, Grécia

No final de 1940, numa altura em que o conflito armado assombrava a Europa, uma caixa de filme produzida pela Ferrania Capelli (fundada em 1923 e ainda em existência) foi encontrada nos destroços de um bombardeiro italiano que havia sido abatido nos arredores de Janina. Balafas comprou esse filme, usado no reconhecimento aéreo, por uma pequena quantidade de farinha de milho. Cortou pedaços de filme da bobine e adaptou-os de forma a poderem ser usados numa câmera Robot que obteve através um soldado italiano. Este filme e a câmera Robot, de fabrico alemão, foram as ferramentas com as quais produziu, com considerável risco pessoal, um registo fotográfico exclusivo da resistência contra a ocupação nazi. As câmeras Robot incorporavam excelentes objectivas grande-angular Zeiss que não exigiam grande focagem. O seu aspecto mais peculiar era a abertura do diafragma, que era quadrada (24x24mm).

Robot Royal 24 e filme, onde é possível apreciar o peculiar formato 24x24mm. O modelo na imagem só começou a ser produzido em 1951. O modelo usado por Kostas Balafas terá sido a Robot I ou a Robot II lançada em 1938. Fonte: Casual Photophile. A palavra Robot ficou famosa muito rapidamente. O escritor checoslovaco Karel Chapek cunhou-a em 1920, a partir da palavra robota, que em eslovaco, polaco e noutras línguas eslavas, pode significar trabalho exercido de forma compulsória, ou escravo.

Como membro da 6ª Brigada do 85º Regimento do Exército de Libertação Popular da Grécia (ELAS), participou de operações militares nas montanhas e capturou a vida quotidiana dos guerrilheiros (marchas, exercícios militares, batalhas), as aldeias queimadas pelos invasores alemães, celebrações populares durante a libertação de Janina (em outubro de 1944), bem como os protagonistas de cada um desses eventos.

Confiou esses registos a um amigo da família, que o escondeu sob o piso de madeira de uma casa em Janina, onde permaneceu pelos trinta anos seguintes.

@ Kostas Balafas, nos tempos da resistência à ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, no Épiro, durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.
@ Kostas Balafas, a resistência no Épiro durante a ocupação nazi.

Um testemunho indiscutível de seu ousado temperamento, mas também da sua ingenuidade, é a fotografia dos corpos dos patriotas Tudoulos e Faridis, que estavam pendurados sem vida entre dois plátanos nas margens do lago Ioannina, em março de 1944. Balafas calculou as distâncias e passou pelo local, vigiado, com um saco de cebola nos braços, mas que por dentro escondia a sua câmera, cuja objectiva saía através de um buraco no saco. Ao passar na frente dos enforcados, Balafas imortalizou o infeliz acontecimento, deixando na história uma das fotografias mais características da ocupação nazi (veja p.f. abaixo).

Ver Também


@ Kostas Balafas, no Épiro, corpos de Tudoulos e Faridis, enforcados entre dois plátanos nas margens do lago Ioannina (março de 1944)

Humanismo e Humanidade

Para Kostas Balafas, a humanidade era o tema mais fascinante do mundo. Por esse motivo, o protagonismo das suas fotografias sempre foi entregue às pessoas já que nelas vivem os períodos de luta e sofrimento, de alegria e de riso, de tristeza e de perda. Ao longo dos muitos anos dedicados à fotografia, o seu olhar voltou-se não apenas para o registo de imagens dos momentos marcantes que moldaram a vida de seus visados, mas como também sempre se interessou pelas tarefas e eventos quotidianos que muitas pessoas consideram irrelevantes dada a sua vulgaridade. O trabalho fotográfico de Kostas Balafas deriva de uma abordagem sincera e intransigente da fotografia documental, baseada na sua profunda preocupação social. É uma abordagem profundamente enraizada em seu respeito pelas pessoas como indivíduos. Isso invariavelmente resultou em fotografias carimbadas por empatia e até carinho pelos seus assuntos.

A sua honestidade permitiu também que ele desenvolvesse um relacionamento único com seus assuntos, tão característico de seu trabalho, o que significa que lhe foi permitido a partilha de momentos, a espaços até íntimos, mesmo que por vezes tremendamente dolorosos.

© Kostas Balafas, numa imagem que, à semelhança de tantas outras, poderia ter sido criada em Portugal
© Kostas Balafas
© Kostas Balafas, a difícil vida na Grécia
© Kostas Balafas, a vida na Grécia de outros tempos.

Pós-guerra

Em 1951, Kostas Balafas tornou-se chefe da secção de reprodução de planos arquitetónicos da empresa estatal de eletricidade (DEH) e foi responsável por registar muitos dos desenvolvimentos importantes na industrialização do pós-guerra.

Foi um dos membros fundadores da Sociedade Helénica de Fotografia em 1952. Morou em Atenas e ensinou fotografia criativa na Academia Leica de Atenas. Morreu em 2011 e deixou-nos um legado na forma de 15000 negativos.

Nunca vendeu qualquer das suas fotografias!

Hoje recordamos Kostas Balafas no EFE.

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