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Yousuf Karsh – O retrato da(s) personalidade(s)

Yousuf Karsh – O retrato da(s) personalidade(s)

Na tormentosa véspera de Ano Novo de 1925, o transatlântico “Versailles” alcançou Halifax saído de Beirute. Tinha concluído uma viagem de vinte e nove dias, tão desagradável como seria de esperar. Dessa vez, contudo, transportava na chamada steerage class, espaço dedicado à classe de viajantes menos afortunados, um jovem arménio de dezassete anos, que de francês pouco sabia e de inglês sabia ainda menos.

O frio de Halifax do virar dos anos é violento, mas a promessa praticamente infinita que o Novo Mundo reservava aos seus recém-chegados, tantos deles refugiados, parecia quase poder fazer esquecer os horrores vividos com os massacres, a tortura e a desolação humana que a Arménia de então tinha como garantia.

Yousuf Karsh chegou ao Canadá sem dinheiro e com pouquíssima escolaridade, condições que à partida seriam altamente desfavoráveis, mas tinha algo que nem todos poderiam ter: alguém que o aguardava. O tio George Nakash, irmão da sua mãe, que o jovem arménio nunca antes tinha visto, nem sequer por meio de fotografia, patrocinou a entrada de Yousuf como imigrante, garantindo perante as autoridades canadianas que Karsh não seria um “encargo público”.

© Yousuf Karsh, auto-retrato, 1952

Yousuf Karsh nasceu em Mardin, actual Turquia, a 23 de dezembro de 1908, ano em que os “Jovens Turcos” forçaram a abdicação do sultão Abdulhamid II e cerca de 6 anos e meio antes da data que marca o início do Holocausto Arménio, o maior catalisador da diáspora do povo de Haico um pouco por todo o mundo. Certamente um dos momentos mais negros da história da humanidade, tão frequentemente secundarizado, mas infelizmente tão ou mais grave como outros que o precederam, assim como de outros que pouco depois se seguiram.

Foi um período de crueldade e tortura extremas, intolerância, perseguição, fome e doença, perpetrado pelo Império Turco-Otomano e negado até hoje pela República da Turquia. Reconhece os crimes, mas atribui a responsabilidade às autoridades da época, não aceitando que se tratou de uma política intencional de eliminação física de todo um povo, i.e., um genocídio.

Yousuf era filho de pais arménios e o mais velho de três irmãos vivos, sendo que um quarto a eles se juntaria mais tarde, nascido já longe de Mardin.

Mulher arménia ajoelhada perante uma criança morta num campo durante o Genocídio Arménio, autor desconhecido, ca. 1915 (Library of Congress)

Em 1922, a família de Yousuf Karsh foi “autorizada a fugir”, sem qualquer bagagem, a pé, apenas com a vida. Destino verdadeiramente afortunado tendo em conta o de tantos outros arménios. Ironicamente, tendo em conta os dias recentes, foi em Alepo, Síria, que a família de Yousuf encontrou a paz e a segurança, assim como a oportunidade de, ainda que a muito custo, reconstruir a vida.

Deportados arménios. Mulheres, crianças e homens idosos. A mulher em primeiro plano está a carregar uma criança nos braços, protegendo-a do sol com um xaile; o homem à esquerda está a carregar roupa de cama; não há outros pertences ou alimentos visíveis entre os objectos transportados. Todos caminham ao sol numa uma estrada de terra, sem meios de se proteger dos elementos. (ca. 1915). Fotografia de Armin T. Wegner.

Assim que as finanças o consentiram e também por voluntariedade do irmão de sua mãe, Yousuf foi enviado para o Canadá ao encontro do tio Nakash, fotógrafo de alguma reputação que o pretendia para assistente no seu estúdio. O Tio Nakash era, segundo o próprio Yousuf Karsh, “um homem de coração generoso”.

Yousuf transportava consigo o sonho de vir a ser médico, mas os primeiros meses na Sherbrooke High School, provaram que tal objectivo seria extraordinariamente difícil de alcançar. Não pelo ambiente, não pela forma carinhosa como Yousuf atestou ter sido recebido, mas pura e simplesmente pelo facto de não falar inglês fluentemente. A educação formal terminava assim mesmo antes de ter começado, mas nem por isso Karsh se sentiu menos em casa ou menos entusiasmado com a sua nova vida e com a sua pátria adoptiva.

No verão de 1926 começou a trabalhar com o tio Nakash no seu estúdio, enterrando irreversivelmente o seu sonho de estudar medicina. Contou Karsh que, embora de início tivesse alguma dificuldade em perceber tudo o que dizia respeito à fotografia, esta cativou definitivamente o seu interesse e passou de apenas uma forma de garantir o seu sustento a uma exaltação incessantemente crescente.

Yousuf palmilhava os campos e bosques em torno de Sherbrooke todos os fins de semana com uma pequena câmera, um dos muitos presentes que o seu tio lhe deu. Revelava as suas próprias imagens e submetia-as à crítica do retratista e mentor que tão intensamente o marcou.

Uma paisagem dos tempos em que Yousuf Karsh ainda morava com o seu tio em Sherbrooke. Esta fotografia valeu-lhe o primeiro lugar de um concurso ao qual nem sequer concorreu.

Foi com essa mesma câmera que assinalou o seu primeiro sucesso fotográfico. Uma paisagem com crianças a brincar. Ofereceu essa mesma imagem a um colega de sala como presente de Natal. Secretamente, esse seu colega – talvez mais amigo do que colega – apresentou-a a concurso. Para surpresa de Karsh, a imagem conquistou o primeiro prémio e a, então magnífica, quantia de cinquenta dólares. Deu dez dólares ao amigo e enviou o restante para seus pais em Alepo.

Pouco tempo depois o tio Nakash conseguiu que Karsh fosse estudar com John H. Garo, de Boston, um amigo arménio, reputado como o retratista mais destacado da costa leste dos EUA. Garo revelou-se uma figura de importância maior no futuro de Karsh e reservou sempre grandes conselhos para o jovem fotógrafo, incentivando-o, por exemplo, a frequentar as aulas nocturnas de arte de forma a poder estudar o trabalho dos grandes mestres da pintura, especialmente Rembrandt e Velázquez. Resumindo, um conselho que apontava no sentido do estudo da luz e da composição como base de trabalho.

© The Estate of Yousuf Karsh, John H. Garo, 1931

Os 6 meses que deveria ter durado a relação entre Karsh e Garo passaram a três anos, sem grande resistência de qualquer um deles. No estúdio de Garo, Karsh tomou contacto com muitos dos processos técnicos usados pelos fotógrafos da época, entre eles a platinotipia, a goma bicromatada, a impressão a óleo e bromóleo, entre outras. Contudo, segundo Karsh, Garo ensinou-lhe mais do que técnicas fotográficas, ensinou-o a ver e a lembrar o que via. Preparou-o para pensar por si mesmo e a desenvolver as suas próprias interpretações daquilo que observava.

Karsh saiu de Boston em 1931. O seu interesse estava nas personalidades que influenciavam a vida de todos os outros e não apenas na questão técnica do retrato ou na questão prática do negócio de retratista. Impulsionado pelos ensinamentos de Garo, partiu com todos os seus pertences embalados em direcção a Otava. Plantou por lá um estúdio muito modesto com móveis que eram em sua grande maioria caixas de laranja cobertas tecidos.

Teve a sorte – ou o engenho – de vir a conhecer B. K. Sandwell (ou apenas BK, como era mais conhecido), o editor da prestigiada e elegantemente ilustrada Saturday Night, revista que fechou as portas em 2005, com mais de 3900 edições publicadas; cresceu entre ambos um relacionamento que Karsh definiu como “um apego caloroso, mas civilizado”. Acompanhando os comentários políticos e sociais de Sandwell, as fotografias de Karsh foram publicadas pela primeira vez na Saturday Night.

Fez poucos amigos em Otava, mas das relações que cultivou, uma teve efeitos duradouros na vida de Karsh e um lugar teve efeitos permanentes na forma como abordou desde então a iluminação na fotografia. Após se juntar a um grupo amador de teatro, chamado Little Theatre, Karsh ficou maravilhado com as potencialidades da iluminação artificial. Enquanto discípulo de Garo, tinha sempre trabalhado com luz natural em estúdio, o que muitas vezes se traduzia em limitações enormes à realização de qualquer trabalho. Ali, exposto ao teatro, cujos méritos cénicos estão tantas vezes associados à qualidade do projecto de iluminação, Yousuf Karsh descobriu um novo mundo para a sua fotografia. Em termos humanos descobriu algo mais.

Na primeira noite no Little Theatre foi conduzido ao camarim da protagonista, a dinâmica e independente Solange Gauthier. Do casamento de ambos, alguns anos depois, até à sua morte em 1960, Solange Gauthier foi uma das grandes fontes de encorajamento, compreensão e inspiração de Karsh.

© The Estate of Yousuf Karsh, Under the Willows (Spring Song), Solange Karsh, 1938

Karsh era, por esta altura, um homem apaixonado pela vida, por Solange Gauthier e pela fotografia que começava a revelar um estilo próprio e de identidade original. Ainda não propriamente o estilo que hoje consideramos ser “Karsh”… talvez um proto-Karsh. Imagens deste período como Turban (Betty Low), 1936, com um foco suave, numa atmosfera onírica, demonstram o idealismo romântico presente nos seus primeiros trabalhos.

© The Estate of Yousuf Karsh, Turban (Betty Low), 1936

De qualquer forma, em meados da década de 1930, Karsh, exibia já um talento especial na modelação da luz e uma assinatura que assentava numa abordagem mais angular à composição no retrato, algo que à altura seria verdadeiramente irreverente.

© The Estate of Yousuf Karsh, Johan Helders, 1938. Helders era maitre no Chateau Laurier Hotel, onde Karsh mais tarde teria o seu estúdio e a sua casa. Fotógrafo amador, foi fotografado no estúdio Karsh enquanto olhava para uma das suas próprias impressões.

Em 1936, quando Franklin D. Roosevelt, o primeiro presidente americano a fazer uma visita oficial ao Canadá, foi até à cidade de Quebec para conversar com Lorde Tweedsmuir (Governador Geral do Canadá) e com o primeiro ministro Mackenzie King, então no seu terceiro mandato, Karsh foi convidado a fotografar esse eminente convidado. A fotografia resultante não foi apenas a sua primeira incursão no fotojornalismo, como foi também a ocasião em conheceu o primeiro ministro King, que posteriormente se viria a tornar patrono e amigo de Yousuf Karsh.

© The Estate of Yousuf Karsh, Franklin D. Roosevelt, Mackenzie King e Lord Tweedsmuir, 1936

Foi Mackenzie King quem possibilitou a fotografia de Winston Churchill em Otava em dezembro de 1941, uma das mais importantes e reconhecidas fotografias de Karsh. A aclamação mundial dessa fotografia – que capturou a imaginação pública – como o epítome do espírito indomável do povo britânico, mudou decisivamente a vida de Yousuf Karsh.

© The Estate of Yousuf Karsh, Sir Winston Churchill, 1941

Pouco mais de um ano após a fotografia de Churchill, no início de 1943, Karsh seguiu viagem para Londres num cargueiro norueguês, parte de um comboio de noventa e três embarcações que, por exemplo no caso da boleia de Karsh, ia carregado de explosivos. Algo que o fotógrafo só soube depois de estar em alto mar.

Em Londres, durante a guerra, fotografou uma imensidão de personalidades, cujas fotografias foram publicadas em diversas revistas inglesas de renome e no livro Faces of Destiny (1946), dando assim início ao seu portefólio internacional. Entre as personalidades podemos encontrar nomes como George Bernard Shaw, o arcebispo de Canterbury e a família real britânica.

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© The Estate of Yousuf Karsh, George Bernard Shaw, 1943

Foi em Londres que Karsh afirmou ter iniciado uma prática que levou até ao fim dos seus dias de profissional, a de “fazer o trabalho de casa” antes de qualquer sessão; descobrir o máximo possível sobre cada pessoa que se vai fotografar. De sublinhar que nesta altura Karsh fotografava sempre com iluminação artificial, com aquilo a que chamava o seu “estúdio portátil”. Qualquer sala, em qualquer local do planeta, estaria pronta para a sua fotografia desde que pudesse instalar o seu equipamento. A adopção deste tipo de procedimento, a continuidade do tipo de iluminação e o controlo repetido e mecanizado do processo de iluminação dos seus retratos, são factores muito relevantes para a manutenção daquilo a que chamamos “o estilo” e principalmente para a estruturação de um trabalho coerente.

Em 1944 aceitou o primeiro de muitos trabalhos para a LIFE, com os quais retratou cerca de 70 personalidades de Whashington D.C. Quase todos os visitantes oficiais do governo canadiano, líderes estrangeiros, reis e rainhas, actrizes, prémios Nobel e até o Papa, foram fotografados por Karsh.

© The Estate of Yousuf Karsh, Paul Robeson, 1941
© The Estate of Yousuf Karsh, Helen Keller, 1948
© The Estate of Yousuf Karsh, Pablo Casals, 1949
© The Estate of Yousuf Karsh, Thomas Mann, 1946
© The Estate of Yousuf Karsh, Jean Sibelius, 1949

Alguns dos seus trabalhos mais reconhecidos, dispensando a fotografia de Churchill, foram realizados na década de 1950, incluindo nestes o retrato de Georgia O’Keefe (1956) e o de Hernest Hemmingway em 1957.

© The Estate of Yousuf Karsh, Ernest Hemingway, 1957
© The Estate of Yousuf Karsh, Georgia O'Keeffe, 1956
© The Estate of Yousuf Karsh, Albert Schweitzer, 1954
© The Estate of Yousuf Karsh, Sir Alexander Fleming, 1954
© The Estate of Yousuf Karsh, Cecil B. DeMille, 1956
© The Estate of Yousuf Karsh, Audrey Hepburn, 1956
© The Estate of Yousuf Karsh, Robert Oppenheimer, 1956

Após a morte de Solange Gauthier em 1960, Karsh casou com Estrellita Nachbar, que muitas vezes o acompanhou em viagens de trabalho, já que a partir de determinada altura Yousuf Karsh passou a preferir fotografar os seus retratados no seu próprio ambiente, isto, apesar de grande parte do seu sucesso se dever ao estatuto de fotógrafo de estúdio.

Yousuf e Estrellita Karsh, por Edward Steichen, 1967
© The Estate of Yousuf Karsh, Barnett Newman, 1969
© The Estate of Yousuf Karsh, Martin Luther King Jr., 1962
© The Estate of Yousuf Karsh, Shin Ichiro Tomonaga, 1969
© The Estate of Yousuf Karsh, Edward Steichen, 1965

Apesar do grosso do trabalho de Karsh ter sido o de fotografar, exemplarmente, celebridades, existem trabalhos de extraordinária importância que não caem exactamente nessa categoria. Comissões que, por exemplo, retrataram o dia a dia de empregados fabris e cujos resultados fotográficos se traduzem em retratos fortes e inspiradores, como aquele que pode ser visto em Rear Window (Gow Crapper) de 1951 ou em qualquer imagem dessa série produzida para a Ford of Canada. O mesmo e se calhar de forma ainda mais extraordinária, pode ser apreciado nas imagens criadas para a Atlas Steel, também do Canadá. Estes trabalhos, pelo desafio que apresentavam em termos de iluminação e da medição da mesma, gama dinâmica exigida e ambiente cujo controlo escapava a Karsh, são o resultado da combinação de múltiplas exposições em diferentes negativos.

© The Estate of Yousuf Karsh, Rear Window (Gow Crapper) para a Ford of Canada, 1951
© The Estate of Yousuf Karsh, Atlas Steel, 1950

Após uma vida de imensos sucessos, prémios, distinções e até títulos honoríficos de 13 universidades, em junho de 1992, Karsh fechou o estúdio em Otava, no Château Laurier Hotel, colocando um ponto final numa carreira comercial de cerca de 60 anos. Vendeu todo o seu arquivo, incluindo negativos, transparência e impressões ao Arquivo Nacional em Otava e voltou para Boston.

Em 1998 por altura da comemoração do seu 90º aniversário, teve a honra de ter a rainha Elizabeth II (Isabel II) a abrir a sua exposição, “Karsh in London”, na renovada Canada House da Trafalgar Square. Nesse mesmo ano, Karsh foi homenageado com o Fox Talbot Award.

Yousuf e Estrellita com a rainha Elizabeth II e Jean Chrétien na abertura da sua exposição na Canada House em Londres, 1998. Autoria: Jean-Marc Carisse

Apenas a título de curiosidade, o seu irmão mais novo, Malak, já nascido em Alepo (Síria) e que tinha emigrado para o Canadá em 1937, foi também um fotógrafo de considerável sucesso. Malak Karsh (1915–2001), também fez retratos oficiais para o governo do Canadá e uma das suas fotografias chegou a ser imortalizada numa nota de 1 dólar, canadiado, claro está. Por uma questão de evitar qualquer confusão, Malak Karsh assinava os seus trabalhos apenas com o seu primeiro nome, porque Karsh há só um. Depois do final da Segunda Guerra, Karsh conseguiu trazer os seus pais e os seus outros dois irmãos para o Canadá.

Com a sua mãe, Bahiyah, e com os irmãos Salim, Malak e Jamil, 1948
Yousuf Karsh por George O'Neill, década de 1980.

“O fascínio infinito destas pessoas está, no meu entender, no que chamo de poder interior. É parte do segredo ilusório que se esconde em todos e tem sido o trabalho da minha vida tentar capturá-lo em filme. A máscara que apresentamos uns aos outros e, com muita frequência, a nós mesmos, pode levantar-se por apenas um segundo para revelar esse poder num gesto inconsciente, uma sobrancelha levantada, uma resposta surpresa, um momento de repouso. Este é o momento para gravar.”

 

Yousuf Karsh

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