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Biblioteca das Imagens Não Vistas

Biblioteca das Imagens Não Vistas

Biblioteca das Imagens Não Vistas

DATA(S): 26 de outubro a 09 de novembro (Lisboa)
LOCAL: 5D CreativeHub (Rua 2 da Matinha, Lote A piso 5 D
1950-073 Lisboa

Texto de Vanessa Badagliacca via página FB do avento (https://www.facebook.com/events/477226172880971/)

“A Biblioteca das Imagens Não Vistas é uma exposição dos fotógrafos José Domingos, Magda Fernandes e Sofia Berberan que parte de materiais fotográficos e objetos do espólio familiar de cada um dos intervenientes (fotografias, documentos de identidade, um “fonopostal” em vinil e objetos de contacto com o corpo, como navalhas de barbear).

Ao pensar numa Biblioteca, logo imaginamos um lugar de consulta, onde ao manusear um livro, eventualmente com outros à volta, escolho entre vários que ali estão e que não toco, que não consultarei, não vejo, cuja existência muito provavelmente até ignoro. No entanto, a biblioteca existe como lugar que me possibilita a proximidade com todos aqueles volumes e documentos presentes no espaço que ocupa.

Para facilitar a consulta, as bibliotecas costumam ter um catálogo disponível para nos orientar nas nossas pesquisas, e uma cota para identificar qualquer objeto que a esta catalogação pertença. A Biblioteca das Imagens Não Vistas, de alguma maneira, parece reverter, ou questionar a própria ideia de identificação, transformando-se numa espécie de arquivo de não-identificação. Apenas vemos, mas não conseguimos identificar claramente rostos, fisionomias, identidades presentes nas imagens mostradas.

Esta negação de identidade, ora apagada, ora escurecida, ora intermitente dos sujeitos fotografados, é também um gesto intencional dos três sujeitos autores destas imagens, que não se dão a reconhecer. A noção de autoria é questionada por um lado através da apropriação de imagens de arquivo, e conseguinte manipulação que as torna irreconhecíveis, proporcionando outras leituras, por outro através da falta de identificação dos autores, quase sem podermos reconhecer os limites onde começa e acaba o trabalho de cada um. Contudo, trata-se de subjetividades distintas, que apontam para histórias diferentes e únicas, tal como convidam a experienciar de maneira única e pessoal a visão e perceção destes trabalhos. No entanto, esta experiência íntima de fruição das imagens é enriquecida na interação entre os visitantes, cuja presença pode momentaneamente apagar e escurecer algumas das imagens expostas, apelando para um tipo de experiência muito mais abrangente do que apenas visual.

E enquanto a imagem é apagada, temos a oportunidade de ver de novo, lentamente, visualmente e coreograficamente. Há uma performatividade que nos convida a ver com os olhos, com as mãos e com o nosso próprio corpo em andamento. Para a frente e para trás, à direita e à esquerda. E o que vemos neste passo, já não será visível no seguinte e assim sucessivamente. A Biblioteca das Imagens Não Vistas torna-se assim um ritmo que marca o tempo dos nossos passos, do nosso olhar, do tocar e manipular os objetos que outras imagens têm para nos revelar.

O filósofo Paolo Virno no seu “Ensaio sobre a negação”, afirma que «a negação é uma função que pertence em exclusivo à atividade verbal» (P. Virno, Saggio sulla negazione, Torino: Bollati Boringhieri, 2013: 16). Por outras palavras, a negação pode existir apenas enquanto palavra, e não materialmente, não no mundo sensível. Deste modo, posso dizer não, mas não posso dar uma forma física à negação que estou a pronunciar. Logo, reparamos como a fotografia, nas suas vertentes técnicas analógicas, até no próprio significado da palavra negativo, questiona a negação na sua materialidade. Deixando-nos levar pela operação que os autores nos apresentam, podemos notar como o paradoxo do negativo é levado quase ao extremo. Negando a imagem de arquivo na sua legibilidade mais imediata, levando-nos a ver de maneira multissensorial.

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O desafio a que Biblioteca das Imagens Não Vistas se propõe é de não deixar ver as imagens. Abdicando da temporalidade instantânea e de consumo imediato dos meios digitais e das suas plataformas de partilha, pede-nos tempo. Apela a uma pausa, veiculada por imagens analógicas que evocam memórias, emoções e nos obrigam a parar, dilatando o tempo, à medida que as nossas pupilas se dilatam na escuridão do espaço expositivo onde acabamos de entrar.

Um jogo, uma dança entre revelar e esconder. E seguindo os passos desta coreografia livre, feita de movimentos pessoais, cada um de nós faz uma própria experiência de visão à medida que atravessa o espaço da exposição.

O paradoxo do apagar, que produz o efeito de salientar, de destacar, permite-nos ver de uma maneira íntima, emocional, afetiva, mesmo sem termos nenhuma relação de proximidade com os sujeitos apresentados. Esta intimidade é proporcionada pela penumbra, pelo contacto com os objetos (um “viewmaster”, um projetor operado manualmente e um visualizador de diapositivos manual). E, de repente, o que não se vê aparece quase como se fosse uma imagem criada pelos olhos de quem observa como visitante de passagem e não por quem fotografou e manipulou estas mesmas imagens.Tanto a apropriação das imagens de arquivo, como a revelação dos autores, que se dão a ver enquanto procuram habitar aquelas memórias, contribuem para preencher as fendas entre a narrativa do passado e a sua reativação no presente, na criação das imagens que vemos quando interagimos com os objetos. Deste modo, a Biblioteca das Imagens Não Vistas conduz-nos por caminhos liminares onde as imagens “encontradas” e as novas imagens que nestas se inspiram (e de algum modo incorporam) constroem narrativas onde os contornos entre realidade e ficção se desvanecem.”

Texto de Vanessa Badagliacca via página FB do avento (https://www.facebook.com/events/477226172880971/)

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