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Étienne-Jules Marey e a cronofotografia

Étienne-Jules Marey e a cronofotografia

cronofotografia é definida como “um conjunto de fotografias de um objeto em movimento, tiradas com o objetivo de gravar e exibir fases sucessivas do movimento”. O termo foi cunhado por Étienne-Jules Marey em 1888.

Étienne-Jules Marey nasceu em Beaune a 5 de março de 1830. Inventor, fisiologista e cronofotógrafo, conseguiu que o seu trabalho tenha tido importância muito significativa no desenvolvimento da cardiologia, da instrumentação física, da aviação, da cinematografia e ciência fotográfica. É amplamente visto como um dos pioneiros da fotografia e do cinema.

Retrato de Étienne-Jules Marey

Professor no famoso Collège de France, Marey foi um dos mais destacados cientistas de seu tempo. É hoje considerado como “O” grande nome por trás da criação da imagiologia médica. Marey inventou uma série de instrumentos capazes de gerar representações gráficas dos fenómenos fisiológicos. Nestes, se incluem por exemplo, o Cardiograma.

Foi, como tantos outros nesse tempo, uma figura multidimensional e multifacetada a quem a especialização pouco interessava. Procurava o conhecimento em tudo o que pudesse ser alcançado.

O caminho de Marey levou-o, em 1869, a construir um insecto artificial, muito delicado, no sentido de mostrar como um organismo daquela natureza voa e, sobretudo, para demonstrar a figura em 8 que o movimento das suas asas produzia durante o voo. Tal experiência levou Marey pelo trajecto que o traz ainda hoje até aos amantes da fotografia. A partir de determinada altura da sua vida, Marey ficou irremediavelmente fascinado pelos movimentos do ar e começou a estudar animais maiores do que insectos como, por exemplo, pássaros. A sua ideia, à altura, verdadeiramente revolucionária, foi registar as várias fases do movimento numa superfície fotográfica. Em 1890, publicou um volume intitulado Le Vol des Oiseaux (O Voo dos Pássaros), ricamente ilustrado com fotografias, desenhos e diagramas.

Antes disso, também relacionado com o estudo do movimento, publicou La Machine Animale (1873), publicação que se crê ter inspirado o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge a realizar algumas experiências que provassem que um cavalo a galope, por um breve momento, tem todos os quatro cascos do chão, afirmação que Marey teria feito, e bem, em 1873. Muybridge publicou as suas fotografias em 1879.

Num pequeno aparte, quero confessar-vos que me lembrei de escrever este post há já algum tempo, quando dei de caras com uma daquelas imagens que se tornaram virais na Internet. Tratava-se de um senhor de meia-idade, de origem asiática, que tinha consigo uma espécie de câmera-espingarda e que correu mundo pela originalidade da engenhoca.

Ora Marey já tinha tido uma ideia semelhante uns quantos anos antes. Uns 117 anos antes! A arma cronofotográfica de Marey foi fabricada em 1882. Tal instrumento era capaz de registar 12 quadros consecutivos por segundo, mas com todos os eles a serem fixados na mesma imagem.

Usando este tipo de imagem, Marey estudou cavalos, pássaros, cães, ovelhas, burros, elefantes, peixes, criaturas microscópicas, moluscos, insectos, répteis e claro está, seres humanos. Em 1894 publicou o famoso livro “Le Mouvement“. Marey também conduziu o famoso estudo sobre gatos, que demonstra que estes felinos caem sempre de pé.

Muito naturalmente, tantos outros nomes se associam à cronofotografia. Desde os “retratos múltiplos” criados em 1844 por Antoine Claudet, passando pelas séries de imagens esteroscópicas de Francis Wenham (provavelmente em 1855) e, claro, Eadweard Muybridge ja acima referido. Lembremos também Albert Londe, que ainda antes de Marey, construiu uma câmera de 12 lentes que registava essa dúzia de imagens num décimo de segundo.

Num período pós-Marey, se assim lhe podemos chamar, Ottomar Anschutz e Georges Demenÿ (assistente de Marey) projectaram – literalmente –  este tipo de tecnologia, desenvolvendo um projector (estroboscópio). A Ottomar Anschutz devem-se ainda outras invenções interessantes, sobretudo no campo da velocidade de obturação, mas isso é assunto para outro post.

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A influência de Marey é quase impossível de medir ou definir cabalmente. São tantas as áreas do saber e do fazer que foram atingidas pela genialidade de Marey, que a tarefa de enumerar cada um dos que beberam da inovação técnica e conceptual seria sempre muito difícil.

Pode não ter sido tão conhecido como Muybridge, mas o seu trabalho influenciou, por exemplo, Thomas Edison; os irmãos Lumière; os irmãos Wilbur e Orville Wright, através do seu livro “Le Vol Des Oiseaux” (1890); o pintor futurista Giacomo Balla, que reproduziu o seu trabalho sobre movimento na obra “O dinamismo de um cão na coleira” (1912); Marinetti ou Luigi Russolo; Marcel Duchamp em “Nu descendant un escalier n° 2″ (1912); Harold Edgerton, outro pioneiro que melhorou o trabalho de Marey por ter usado o flash no sentido de produzir imagens com muito maior precisão e nitidez. Muitos outros caberiam nesta lista.

Embora Marey fosse, na sua essência, um homem de ciência, não se pode ignorar a sua profunda contribuição para a fotografia. Para ele, os factos importavam imensamente, ao contrário de Muybridge, que Marta Braun (autora de “Picturing Time: The Work of Étienne-Jules Marey” (1830-1904)) relata como um homem cujo trabalho, embora importante, “estava cheio de lacunas, rearranjos e, aparentemente, enganos intencionais. ”.

Para Marey, na verdade, a câmera era apenas uma ferramenta com a qual ele observou, com sucesso, o que até então em termos de locomoção, estava vedado ao olho humano. Marey é também um caso claro de como a ciência influencia tantas vezes a arte.

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