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Roger Fenton – O primeiro fotógrafo de guerra

Roger Fenton – O primeiro fotógrafo de guerra

Roger Fenton (1819-1869) é uma figura imponente na história da Fotografia e guarda para si outros títulos como o de ser, reconhecidamente, o primeiro fotógrafo de guerra e o fotógrafo mais célebre e influente de Inglaterra durante a década de 1850.

Antes de ser fotógrafo, Fenton estudou direito em Londres e pintou em Paris. Em 1852, numa viagem à Rússia Imperial de Nicolau I, fotografou Kiev (actual capital da Ucrânia) e Moscovo; fundou a Photographic Society (mais tarde designada Royal Photographic Society) em 1853; foi nomeado o primeiro fotógrafo oficial do Museu Britânico em 1854; alcançou amplo reconhecimento pelas suas fotografias da Guerra da Crimeia em 1855; e destacou-se ao longo da década como fotógrafo em todos os géneros da fotografia – arquitetura, paisagem, retrato, natureza morta, reportagem e tableau vivant.

Coronel Brownrigg e dois rapazes russos (Alma e Inkermann), 1855 | © Roger Fenton
Cap. Brown e o seu criado na 4th Light Dragoons com fardamento de inverno (1855) / © Roger Fenton

Apesar de ser indubitavelmente o mais capaz fotógrafo inglês da sua época em áreas como a fotografia de arquitectura e de paisagem, a aclamação mais generalizada de Fenton ocorreu em 1855, com fotografias da Guerra da Crimeia, um conflito no qual as tropas da Grã-Bretanha, da França, da Sardenha e da Turquia (também com o apoio do Império Austríaco), enfrentaram a tentativa expansionista Russa contra o Império Otomano na Europa. Fenton foi contratado pela editora de Manchester, Thomas Agnew & Sons, para viajar para a Crimeia e documentar a guerra. A sua missão foi também incentivada pelo governo, que esperava que as suas fotografias tranquilizassem um público preocupado com o desenrolar do conflito. Detalhando, há ainda hoje sobre isto duas versões: a primeira é que a comissão ordenada pela empresa de Manchester tinha como intenção a utilização das fotografias conseguidas por Fenton para base das pinturas de Thomas Barker, famoso pelos quadros de paisagens e da vida rural inglesa; a segunda aponta que a missão de Fenton foi impulsionada pelo duque de Newcastle, pelo príncipe Albert e por outros clientes influentes, que queriam que as fotografias os ajudassem a moldar a opinião pública britânica sobre a guerra. Se calhar podemos concordar com uma mistura das duas.

Da esqueda: Cap. John George Brown, Ten.Cor. Alexaner Low e Cap. George Thorne George, "all of the 4th Dragoons, in Crimea" (1855) | © Roger Fenton
Grupo de homens da 4th Light Dragoons a serem assistidos (1855) / © Roger Fenton
Conselho de Guerra / © Roger Fenton
Zuavo ferido e uma vivandière (5 de Maio, 1855) | © Roger Fenton

A extensa documentação de Fenton sobre a guerra incluía imagens do porto de Balaklava (vila na península da Crimeia), dos campos, do terreno de batalha e também retratos de oficiais, soldados e equipa de apoio dos diferentes exércitos aliados. As cenas variavam entre o espontâneo e o encenado, entre o contemplativo e o registo de acção, naquele tempo muito limitado pelos equipamentos.

A missão, conta-se, foi tudo menos indolor e a postura de Fenton, depois do conflito, provou exactamente isso. Além de tudo o resto, partiu várias costelas durante um dos três outonos atravessados pela Guerra da Crimeia e chegou mesmo a contrair cólera. Ainda assim, conseguiu cerca de 360 ​​fotografias dignas de serem consideradas um brilhante documento. Como quase todos os fotógrafos de guerra que se lhe seguiram, Fenton documentou apenas um dos lados do campo de batalha. Na mesma relação e tal como muitos fotógrafos que vieram a dedicar uma parte das suas vidas à documentação de conflitos, o campo de batalha, a morte e a destruição, afectaram indelevelmente cada um deles.

Balaklava a partir de uma posição elevada atrás da igreja russa (Março de 1855) / © Roger Fenton
Porto de Balaklava (1855) / © Roger Fenton
Um grupo de croatas (março, 1855) / © Roger Fenton

Mas apesar de toda a fama e agradecimento que a Fotografia pode e deve fazer a Fenton, há uma polémica em torno de uma das suas imagens. Bom… polémica talvez seja exagero da minha parte, mas a verdade é que há uma história por detrás da história que uma das mais famosas fotografias de Fenton quis contar. A imagem de Fenton conhecida como o “Valley of the Shadow of Death” (título inspirado num poema de Alfred Tennyson, “The Charge of the Light Brigade“) é tida como a primeira grande fotografia de guerra e,  acredita-se, foi encenada. Existem duas fotografias da mesma cena, uma com balas de canhão espalhadas pela “estrada” e outras com essas mesmas balas de canhão na beira dessa mesma “estrada”. Não existe uma certeza absoluta acerca deste assunto, mas há um conjunto de brilhantes artigos publicados no The New York Times, entre 25 de setembro e 23 de outubro de 2007, que pode e deve ler. “Which Came First, the Chicken or the Egg?” (Parte 1, 2, & 3) de Errol Morris, é provavelmente a melhor análise à polémica achada na fotografia de Fenton e é uma maravilha de ler e absorver.

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"Valley of the Shadow of Death", Abril de 1855 / © Roger Fenton

Quanto ao trabalho de Fenton enquanto fotógrafo de guerra, além de pioneiro, foi enormemente lucrativo. Não para Fenton, claro está! As placas que chegaram a Inglaterra geraram o interesse de vários milhões de pessoas e cerca de dois milhões delas pagaram um xelim para ver as exposições, um pouco por toda a Grã-Bretanha. As exposições foram um sucesso para críticos e público em geral, mas Fenton aparentemente ganhou pouco dinheiro com a empresa. Caso seja do seu interesse e disponha de um mínimo de 55.000,00 EUR, a Sotheby’s vai leiloar a “A quiet day in the mortar battery” de 1855 (ver abaixo), dentro de duas semanas. Quem sabe?!

Em 1862, depois de uma série final de fotografias – um conjunto notável de exuberantes naturezas mortas – que se seguiram a algumas sessões com a família real, entre outras insignificâncias, Fenton viu-se tão desiludido com o ênfase comercial da fotografia que vendeu todos os seus equipamentos e negativos, renunciou à Royal Photographic Society e voltou mesmo à barra dos tribunais em 1963.

"A quiet day in the Mortar Battery" / © Roger Fenton

No decorrer de uma única década, Fenton desempenhou um papel fundamental ao demonstrar que a Fotografia poderia rivalizar com o desenho e a Pintura, não apenas como um meio de transmissão de informação, mas também como um meio de deleite visual e poderosa expressão visual. Hoje recordamos Roger Fenton no EFE.

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