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Anselmo Franco, Entrada na cidade das tropas leais ao governo após a derrota da revolta de Santarém (Portugal, 1919)

Anselmo Franco, Entrada na cidade das tropas leais ao governo após a derrota da revolta de Santarém (Portugal, 1919)

Sobre o século vinte, poderá ter sido dito que carregava no seu início grandes esperanças, uma herança dos seus antecessores, com a racionalidade do Iluminismo setecentista e a progresso técnico acelerado da indústria de oitocentos a segurarem-lhe os primeiros passos.
E poderá igualmente ter sido dito que, aos catorze anos,  foi tomado por uma doença infantil, que com recaídas várias, lhe limitou o crescimento e a maturidade.
Mas tais esperanças foram certamente voluntariosas, e a doença não seria exactamente infantil. Antes congénita.

O massacre industrial da primeira guerra mundial não foi certamente um evento totalmente inesperado. A crescente eficiência das armas foi algo que se foi desenvolvendo num contínuo que parte do século XVIII, em constante aceleração.

Uma aceleração que não se verificou de igual modo nas estratégias militares. Entre as armas das  guerras napoleónicas e as da guerra civil americana há um mundo de diferenças, mas no espirito das elites militares as mudanças foram bem mais modestas.
O conflito norte-americano, a cinquenta anos de distância, prenunciou largamente a catástrofe  das trincheiras europeias. E, no entanto, durante anos insistiu-se nas cargas massivas sobre o inimigo, enfrentado armas tremendamente mais mortais do que as haviam feito mortandades já épicas nos campos de Gettysburg, Sharpsburg e Chancellorsville.

Em Portugal, este desfasamento entre cultura, estratégia e técnica não deixou também de se evidenciar. Durante as invasões napoleónicas, a resistência popular e a acção das milícias e guerrilhas foi certamente mais eficaz do a maioria dos enfrentamentos directos efectuados pelas forças regulares portuguesas. Perante os franceses, mais do que o lidar com inovações militares (que não eram de todo um problema, quando enquadrados nas forças de Wellington), às recentemente reorganizadas unidades portuguesas o que as atrapalhava era sobretudo a falta de  conhecimento, organização e treino.

Apesar de várias tentativas de reforma, prevalecia grandemente o privilégio aristocrático na determinação das chefias militares, e as tentativas de mudança eram enfrentadas como ofensas à honra.

O conflituoso século dezanove teria um constante rol de reforma e tentativas de reforma, (modestas) aquisições e modernizações de equipamento, e igualmente um permanente arrastar-pé e somatório de divisões na estrutura militar. Uma situação que não seria mudada substancialmente com a implantação da republica, com o propagandeado “milagre de Tancos” a treinar com manobras de cavalaria e equipamento obsoleto, tropas que iriam enfrentar gás e metralhadoras nas trincheiras da flandres.

Mesmo depois dessa elucidante, e trágica,  experiência europeia, na guerra civil episódica que se viveu no país até bem adentro do consulado do Estado Novo, verificaram-se caricatas evidências deste desfasamento entre tradição militar e meios disponíveis.

Na revolta de Santarém, em janeiro de 1919, uma heterodoxa mistura de civis e militares, de democráticos, evolucionistas, independentes, ex-sidonistas e socialistas, opôs-se ao governo de João Tamagnini  Barbosa, o militar que sucedera a Sidónio Pais, após o seu assassinato.
No esmagamento da revolta, o governo utilizou a novíssima aviação militar no combate, sediada relativamente perto, na base aérea de Tancos, até à rendição dos insurrectos.

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Anselmo Franco, pioneiro do fotojornalismo português, em serviço para o Diário de Notícias, conseguiria chegar a Santarém a tempo de registar a entrada das forças leais ao Governo, comandadas pelo Coronel Andrade Velez.
O que a sua câmara captaria não seria exactamente a eficiência de forças equipadas com aviação e artilharia modernas, mas bem mais a pompa e os rituais de uma mentalidade militar com raízes  em tempos muito anteriores.

 

Anselmo Franco, Entrada na cidade das tropas leais ao governo no Campo Sá da Bandeira após a derrota da revolta de Santarém, Portugal, Janeiro de 1919 |  Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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