António Novais, A rainha Dona Amélia visita o Hospital de São José, Lisboa, Portugal, 1904

O mundo ocidental entrou no século vinte com uma enorme fé no progresso da ciência e da razão.
E a escolha da palavra fé nesta frase não se dá por mera displicência.
À parte duns quantos pensadores, tidos por negativos e nihilistas, prevalecia uma crença idealista (e arracional) de que a História segue numa direcção, de que o mundo progride naturalmente. A razão científica prometia a resolução de problemas milenares.

No campo da Medicina, este optimismo era particularmente visível. O século anterior trouxera progressos espantosos. Da revolução da higiene hospitalar, aos progressos espantosos da microbiologia, que tinham em Louis Pasteur e nas vacinas o seu maior expoente, passando pela descoberta de técnicas como a da radiologia, várias foram as mudanças paradigmáticas na prática médica, e dos meios ao seu dispor, que produziram uma assinalável redução na mortalidade nos países europeus e nos Estados Unidos.

Mas este optimismo era também produto de crenças e dum entusiasmo que contornava os factos. Muitos tratamentos revolucionários do período revelaram-se especulativos,  inconclusivos, ou até desastrosos. Isso não os impediu de serem fervorosamente utilizados perante décadas. Alguma “ciência” produzida nas primeiras décadas do século não era senão preconceito com embalagem prestigiosa, e teorias de higiene social, genética  e racial, assentes em medições antropométricas e má estatística,  haveriam de dar aval a práticas criminosas de longa longevidade.

Portugal, território dado a simulacros e a entusiasmos iludidos e passageiros, não era alheio a este ambiente. No bom e no mau. O século anterior terminara com um surto da “medieval” peste bubónica na cidade do Porto, que fora controlado pela acção decidida do Dr. Ricardo Jorge, médico e cientista conhecedor dos conceitos de saúde pública. Mas a sua decisão (acertada) de criar um cordão sanitário sofreu forte resistência, incluindo mesmo tumultos nas ruas da cidade.

A rainha D. Amélia,  consorte do rei D. Carlos, proveniente da iluminada e moderna França, trouxe consigo a ambição de ajudar a erradicar os males da época, como a pobreza e a tuberculose. Fundou dispensários e sanatórios e estaria na origem do Instituto Pasteur em Portugal. O fotógrafo António Novais registá-la-ia numa visita ao hospital de São José Lisboa e, não por acaso, a imagem haveria de a fixar junto de algum do mais moderno equipamento.

A imagem, que hoje tem uma aura irreal, corporiza mais um desejo de modernidade do que um estado do país.
Num país de elites limitadas e dum analfabetismo esmagador, a razão científica e assistência hospitalar não era senão epidérmica na sociedade portuguesa.

A República, instaurada poucos anos depois da realização desta fotografia,  tentaria uma ruptura forçada com os atavismos, acreditando que seria possível revolucionar rapidamente o país. Não teria grande sucesso.

Nos contingentes enviados para as frente africanas da primeira guerra mundial não haveria sucesso no uso de quinino para combater a malária. Durante décadas, os delegados de saúde travariam uma batalha incessante com o ancestral hábito de colocar as estrumeiras junto de poços e fontes de água. E a resposta à epidemia da pneumónica, que poderá ter sido responsável pela morte de 2% da população, seria incoerente e atabalhoada.

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A interiorização de hábitos médicos modernos não se faria celeremente por decreto no quadro duma frágil rede de assistência médica.  A evolução de costumes e de mentalidades seria muito lenta e assentaria no aumento da literacia e da educação,  na evidente eficácia de novos medicamentos e técnicas e numa acessibilidade efectiva à Medicina.

 

António Novais, A rainha Dona Amélia visita o Hospital de São José, Lisboa, Portugal, 1904
[ Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa ]

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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