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Diogo Margarido, Anta (Castelo de Vide, Portugal, 1972)

Diogo Margarido, Anta (Castelo de Vide, Portugal, 1972)

O conceito de defesa do património histórico, contrariamente ao que poderia pensar num país fortemente amarrado a narrativas de carácter histórico, é espantosamente recente.
Até ao Renascimento, não houve na Europa um particular fascínio pela cultura material, e edificada, do passado.

Num período marcado pela escassez de recurso,  a atitude perante objectos e construções antigos era, muitas vezes, simplesmente utilitária.
As ruínas do período romano eram vistas como acessíveis (e baratas) fontes de materiais de construção, e as construções romanas sobreviventes iam sendo reutilizadas em novas funções, tornando-se por vezes irreconhecíveis. O anfiteatro romano de Nimes, em França, por exemplo, foi  engolido pela cidade medieval, transformando em habitações a estrutura herdada, preenchendo a arena com novas construções alimentadas com materiais “canibalizados”, e adossando caoticamente no seu exterior novo edificado.

Esta perspectiva utilitária relativamente aos materiais não era exclusivamente aplicada aos materiais romanos.
Em Portugal, materiais romanos e do período islâmico foram usados indiferenciadamente  em muralhas e outro edificado medieval. E, já no período moderno, quando a artilharia retirou valência defensiva a castelos e fortificações urbanas, estes tornaram-se rapidamente em “pedreiras” que alimentaram a expansão urbana das urbes.

Mesmo mais tarde, quando discurso patrimonial se tornou um dos pilares legitimadores do Estado Novo, a alegada defesa pública das construções foi particularmente parcimoniosa.

Para o imaginário nacionalista do regime, a verdadeira identidade portuguesa associava-se ao período da “Reconquista”, tendo sido feita uma campanha de “recuperação” dos edifícios do período Românico e Gótico, frequentemente fantasiosa, e devastadora para muito património maneirista e barroco que se justapunha sobre essas estruturas anteriores. Igualmente nesse período,  troços do aqueduto das Águas Livres foram desmantelados, sem possibilidade de escândalo e ultraje público. E quanto aos monumentos pré-romanos, à parte de algum tratamento e proteção de vestígios castrejos ( o culto da figura de Viriato assim o impunha), pouco foi verdadeiramente feito.

Diogo Margarido, no seu périplo fotográfico pelo familiar território do Alto Alentejo, no início dos anos setenta, pôde comprovar como a perspectiva utilitária pré-moderna prevalecia ainda na cultura rural de subsistência.
Antas, ou dolmens, grandes estruturas megalíticas funerárias, em tempos cobertas por elevações artificiais, eram aproveitadas por pastores que, aproveitando materiais soltos próximos, construíam currais toscos para proteção dos seus rebanhos.

 

Diogo Margarido, Anta, Castelo de Vide, Portugal, 1972

 

Ver Também

O Portugal da EFTA , no fim do Estado Novo, que se tentava modernizar com refinarias, fábricas e siderurgias, mantinha facetas e lógicas medievais.

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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