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Diogo Margarido, Cozinha em Vales (Marvão, Portugal, 1959)

Diogo Margarido, Cozinha em Vales (Marvão, Portugal, 1959)

Diogo Margarido, Cozinha em Vales (Marvão, Portugal, 1959)

Partindo da afirmação provocatória de Gérard Castello-Lopes de que não haveria uma fotografia portuguesa, porque tudo na fotografia, excepto a água usada nos tempos do analógico, era estrangeiro, parece claro que é complicada a questão de um carácter nacional e identitário na fotografia portuguesa.

Até porque, por razões históricas, há alguma aversão em lidar seriamente com o tema. O recorrente discurso identitário da narrativa legitimadora do Estado Novo, com um grande gosto pela simplificação e pela redução (pela manipulação, enfim), exige ainda hoje muitos cuidados. É muito fácil escorregar neste terreno, onde esse lastro transporta facilmente a abordagem para o folclorismo e para o lugar-comum.

Gérard Castello-Lopes apontava no mesmo texto para que a única forma de introduzir um carácter nacional era pela via pessoal. Transpor uma luta individual nesse confronto com a realidade portuguesa, era a única forma real de nos furtarmos a copiar estilos de fora ou a repetir os esquemas representativos aceites (ou impostos) por cá.

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As imagens pessoais e realistas do Portugal eminentemente rural de meados do século vinte vivem por vezes nessa tangente entre a realidade e essa idealização redentora da ruralidade, tão grata ao ideário vigente.

A cozinha da casa dos avós de Diogo Margarido, transmite-nos esse Portugal esforçado que o Secretariado Nacional de Informação gostava de veicular, mas fá-lo com propriedade e verdade, aquela não é uma cozinha rural abstracta, é uma cozinha verdadeira, vivenciada pelo fotógrafo, e transmite-nos uma dureza e uma dificuldade diária que a faz descolar do estereótipo. Nela, de português, há muito mais do que a água.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

© 2020 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA.

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