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Erwin E. Smith, Cowboys negros (E.U.A., 1911-1915)

O poder cultural e criativo do cinema de Hollywood, e da era dourada do Western, conseguiram  o estranho feito de universalizar um género e um território que tinham tudo para permanecer na sua geografia de criação.

O Oeste cinematográfico é um território mítico, não totalmente geográfico (tanto pode abranger o Texas, a Sul e Sudeste, ou o Midwest, a meio do continente, como a ocidental Califórnia), e não exactamente factual, misturando História e a Ficção num jogo de referências e de estereótipos.

A força do western dependeu fortemente desse viés em relação à realidade. Enquanto pôde fornecer enredos lineares, de bons e maus, a plateias que não lhe pediam realismo e verdade, pôde prosperar, e até expandir-se para produções tão diversas e estranhas quanto a italiana e a soviética.

O estertor do western, no fim dos anos  sessenta e na década sequente, coincidiu com uma deriva do género para  formulações que lhe eram  invulgares, como a comédia e, em particular,  para nuances realistas.

Vários realizadores, como Sam Peckinpah, introduziram um novo ar do tempo, uma pulsão gráfica e visceral que arrancaram definitivamente o western da sua violência estilizada, dos enredos moralistas e moralizadores. E que em parte, não totalmente, o condenaram.

O desaparecimento do filme de cowboys, loiros e heróicos, em luta com vilões maus, estupidamente maus, povoado de índios, simultaneamente traiçoeiros e rectos, sábios e imbecis, de heroínas que tanto desmaiavam quanto esbofeteavam antes de se renderem a beijos, e duma cavalaria que chegava sempre no momento certo, coincidiu também com a própria mudança do negócio do cinema, que se afastava duma vasta produção média para investir sobretudo em blockbusters, mais ao gosto dum novo público que tinha a televisão como fonte principal de entretenimento.

Mas a verdade é que muitos não perdoaram a perda de clareza moral e a fuga às referências que esperavam do género. E, no estranho mundo de redes sociais e realidade alternativa em que presentemente se vive, não é impossível encontrar protestos que consideram aspectos do pendor realista como uma invenção indesculpável, uma  intromissão do “politicamente correcto” no seu cinema. Um deles é um Oeste variado. Índios verdadeiramente indios, já não apenas figurantes “caucasianos” pintados, europeus recém-chegados e com sotaque e, espante-se, cowboys negros.

Esta indignação deriva dessa estranha confusão entre a verdade real e a verdade dum género ficcional. Aqui, a fotografia,  com a sua ambígua relação com verdade, tanto pode ajudar a manter o Oeste fictício, como nos pode fornecer uma janela para a realidade factual da história e do território americanos. No primeiro campo, por exemplo, muitas das fotografias duma “etnografia” encenada de Edward S. Curtis podem ajudar a estruturar o lado folclórico que o público ocidental apreciava nas representações dos índios. Por outro lado, todo o conjunto de fotografias de natureza mais documental, como as de Solomon Devore Butcher, permitem-nos aperceber dum universo deveras variado e complexo.

Ver Também

Erwin E. Smith, Cowboys negros, E.U.A., 1911-1915 [ Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos ]
A imagem acima, de Erwin E. Smith, situa-se nesse segundo domínio e demonstra-nos um aspecto largamente ausente da era dourada do western.
Após o guerra civil americana, muitos dos escravos libertados rumaram aos territórios de fronteira, em fuga duma situação sem futuro nem esperança no sul derrotado, e empregaram-se frequentemente como vaqueiros. Uma realidade que se estenderia por gerações, e que seria até contemporânea dos primeiros criadores de filmes do género.

Não a dar a ver foi decerto uma opção.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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