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Hugo Jaeger, Jovem do gueto de Kutno (Polónia,1939)

Hugo Jaeger, Jovem do gueto de Kutno (Polónia,1939)

Olhar para a fotografia jornalística e documental é, com frequência,  olhar para uma complexa e tortuosa relação com as ideias de verdade e de realidade.

Contrariamente à ideia comum, a fotografia não é um processo neutro de transferência do mundo para uma imagem. Não o é, nem do ponto da técnica, em que lentes, suportes, exposição e ângulos podem construir um percepção equivoca de factos e espaços, nem do ponto de vista operativo, em que o fotógrafo introduz as suas opções e objectivos.
Muito dificilmente se poderá dizer que o olhar de um fotógrafo é absolutamente neutro, mesmo que seja esse o seu propósito.

E, quando entramos no campo da fotografia ao serviço da propaganda, entramos num campo em que veracidade, ética, estética e técnica se combinam em doses variadas e assimétricas. Sem nos aventurarmos na área estrita das falsificações e das fotomontagens, podemos ir do Sublime bem intencionado ao Belo moralmente intoxicante, passando pelo Banal revoltante. Podemos ir das fotografias da Farm Security Administration, que aliavam uma pulsão documentarista a intenções políticas da Administração Roosevelt e do seu New deal, a alguma fotografia soviética, chinesa e até vietnamita, em que encenações elaboradas, verdadeiros tableaux vivants, procuravam estimular fervor revolucionário, passando algures a meio por figuras como o nebuloso Hugo Jaeger da Alemanha nazi.

Apresentado frequentemente como fotógrafo pessoal de Hitler, um título que lhe parece assentar bem pelas suas fotografias coloridas do ditador e do seu círculo íntimo em cerimónias semi-privadas, Jaeger é logo aí uma figura vaga e duvidosa. Ao contrário de Heinrich Hoffmann, fotógrafo que, desde de muito cedo, acompanhou Hitler de forma muito próxima, e que foi decisivo na construção da sua imagem propagandística, há sérias dúvidas relativamente à real proximidade de Hugo Jaeger com o líder nazi.

Hugo Jaeger, Hitler com o professor Morrel e a esposa do líder nazi AlbertForster, Alemanha, sem data

Daniel Uziel, historiador do Yad Vashem, o Memorial Do Holocausto de Israel, descrê da veracidade do título de fotógrafo pessoal de Adolf Hitler.  Segundo ele, Jaeger, um fotojornalista reconhecido na Alemanha dos anos trinta, terá sido recrutado para a esfera dos militares nazis, e terá sido em resultado dessas funções que obteve não só material e equipamento especialmente raro num período de guerra, como filme Kodak (americano) colorido e câmaras estereoscópicas, como o acesso privilegiado ao pequeno circulo da liderança nacional-socialista, cobrindo eventos a que, de outra forma, lhe estariam vedados.

Sobre a nebulosidade de Hugo Jaeger, há que referir que apesar dos especiais privilégios que obteve do seu estatuto de fotógrafo militar, tudo indica que terá beneficiado de peculiar liberdade, não tendo entregue o material do seu trabalho ao Secretariado de Propaganda Nazi, como seria espectável, e tendo mesmo beneficiado de uma proveitosa relação comercial com a  Raumbild-Verlag, uma editora de Munique especializada em álbuns estereoscópicos.

Imediatamente após o colapso do regime nazi, Jaeger esteve prestes a ser capturado na posse do incriminador produto do seu trabalho. Após um encontro com um incompetente grupo de militares americanos, mais interessados em garrafas de conhaque do que em suportes fotográficos, o fotógrafo enterrou, perto de Munique, vários jarros de vidro, nos que guardou as fotografias que realizara aos longo dos anos de envolvimento com o aparelho nazi.

Somente dez anos depois, confiante com o fim das operações de denazificação, e com um fechar de olhos ao passado por parte da recente República Federal Alemã, Hugo Jaeger retiraria as fotografias do seu esconderijo subterrâneo, colocando-as num cofre bancário.

Em 1965, vinte anos após a queda e morte de Hitler, venderia estes despojos, financiados pela propaganda nazi,  à revista norte-americana LIFE, sendo possível que a sua alegada qualidade de antigo fotógrafo pessoal do ditador tenha funcionado como estratégia de negociação na referida transação.

A revista, ao adquirir as imagens de Jaeger, comprou igualmente uma questão de grande sensibilidade, que faria com que as imagens fossem apenas tornadas públicas mais de quarenta anos depois, em 2009, por altura do 65º aniversário do desembarque da Normandia. A par do particular potencial voyeurístico, relativo  à revelação da intimidade do ditador, as fotografias de Jaeger forneciam uma delicada abertura ao olhar do outro, sendo que neste caso “o outro” era um  agente da parte derrotada duma guerra devastadora e, não menos decisivo, da facção da guerra que desenvolveu uma política de genocídio.

A fotografias de Jaeger encerravam não só um invulgar olhar alternativo, em que os nazis se viam como vencedores e superior, em tudo diferente da narrativa que resultou da vitória dos aliados (veja-se este artigo), como apresentavam com a marca da “normalidade” aspectos intoleráveis da aventura nacional-socialista.

Um dos núcleos de imagens mais sensíveis  diz respeito às fotografias do gueto de Kutno, na Polónia.
Equivocamente catalogadas pela LIFE como sendo de 1939, um momento relativamente mais “benigno” da segregação desta população judaica (quando, após a invasão alemã, a comunidade de cerca de oito mil pessoas foi agrupada numa secção da cidade), na verdade, a natureza do que nos expõem parece não deixar duvidas quanto a serem do ano seguinte, quando os judeus de Kutno foram transferidos para uma antiga fábrica de açúcar e alguns barracões anexos, edifícios que carregavam a destruição parcial dos bombardeamentos de 1939.

Parte destas imagens parece em tudo querer veicular a narrativa oficial, verificável num artigo do jornal local de língua alemã Litzmannstädter Zeitung, de 22 de Setembro de 1940. Neste, um sinistro chefe de polícia, o tenente Weißenborn, apresenta os judeus de Kutno como culpados da sua sorte, como seres habituados e conformados com a vida na imundice. Gente apresentada como vivendo da generosidade e tolerância das autoridades alemãs, apesar da ausência de méritos.

Hugo Jaeger,
Mulher e bebé no gueto,
Kutno, Polónia, 1940

 

Hugo Jaeger,
Gueto de Kutno,
Polónia, 1940

Não são porém estas imagens de Kutno, estes raríssimos “instantâneos” coloridos dos passos prévios do viria ser a futuramente chamada “solução final”, as que parecem carregar maior espanto.
Algo que parece fascinar muitos dos que se cruzam com fotografias de Kutno, é facto de, em algumas delas, não só as pessoas sorrirem para a câmara, como o de haver um claro esforço em encontrar beleza feminina em aparente e casual felicidade.

Hugo Jaeger, Jovem do gueto de Kutno, Polónia, 1939

Alguns artigos publicados, nomeadamente em tabloides britânicos, focaram-se nesta surpresa de encontrar “felicidade”, “à vontade” e “beleza” na desolação, e na eminência do desastre que se pressentia. Por vezes, esta estranheza é apresentada como prova duma benignidade de Jaeger, que sendo um fervoroso nazi, não partilharia do ódio aos judeus que era um aspecto central, e incontornável, dessa ideologia, e que teria procurado um retrato mais humano dos judeus de Kutno.

Outras vezes, a coisa resvala do questionável para o confrangedor. Há, em alguns textos, um mórbido fascínio pela naturalidade sorridente das mulheres de Kutno, que se sabe condenadas. Uma delas, é mesmo descrita como sendo de tal beleza que poderia ser uma estrela de cinema.

Hugo Jaeger,
Mulher sorrindo no guetho,
Kutno, Polónia, 1940

Estas confusas, por vezes mesmo angustiantes, considerações, parecem partir dum subtexto, da aparentemente ingénua convicção de que a fotografia regista uma verdade que é exterior à imagem.

Ora, mesmo o mais crédulo dos actuais utilizadores duma câmara, ou de um smartphone, tem alguma consciência de que tal não será uma evidência absoluta. A fotografia cria uma “verdade”. Um fotógrafo hábil cria uma “verdade” hábil, ou até várias “verdades” hábeis.

Sobre a habilidade de Hugo Jaeger, basta percorrer as imagens de Kutno. Há nelas o pior estereotipo do “judeu” veiculado pelo regime nazi, e há nelas a beleza feminina inesperada. Duas “verdades” distintas.

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Mas percorrendo-as com mais atenção, encontra-se também indícios do mecanismo de construção da “verdade”. A jovem mulher que o Daily Mail descreve como sendo dotada do material que cria estrelas de cinema, com sorriso e postura  relaxada, aparece numa outra fotografia de Jaeger que, de forma evidente, põe em causa tese da naturalidade das imagens.
Justapondo as imagens, pode-se intuir a processo que lhes subjaz.

Hugo Jaeger,
Momentos distintos de mulher no gueto,
Kutno, Polónia, 1940

A câmara é um elemento perturbador da realidade. Altera-a. A relação entre fotógrafo e fotografado é uma relação de poder. É-o no caso de um fotógrafo de casamento, de um fotógrafo de estúdio e, sobretudo, no caso de um fotógrafo militar em contexto de guerra e de ocupação.
Nas imagens de Kutno, não haverá decerto uma naturalidade capturada passivamente por Jaeger. Este terá certamente fotografado o que lhe interessava fotografar, dando as indicações que lhe foram necessárias.

Sobre os motivos que o orientaram, não haverá certamente certezas. Poder-se-á alinhar pela tese que lhe é mais favorável, a da procura dum retrato mais humanizado dos judeus perseguidos na Polónia (mesmo tendo feito, em simultâneo, um registo paralelo mais próximo da retórica nazi padrão). Mas há igualmente espaço para a dúvida na abordagem do nebuloso Hugo Jaeger.

Fotógrafo militar e de propaganda, enfrentava, como outros, um período de relativa acalmia na frente leste.
Não havendo muito para fotografar durante preparação da futura, e então secreta, invasão da União Soviética, os guetos polacos ter-se-ão afigurado como um tema útil e possível. Aí, Jaeger poderá ter-se então ter debatido com a falta de directivas claras para a abordagem da questão judaica.
A “Solução Final” foi um processo desenvolvido essencialmente a partir de 1941, e pela altura em que as imagens de Kutno fora feitas, a perseguição e a eliminação da população judaica eram um “mecanismo” já em marcha, mas algo improvisado e desorganizado.

Jaeger poderá ter apostado em abordagens diversas para garantir o sucesso do seu trabalho. Poderá ter feito os expectáveis registos denigrativos, e poderá terá feito imagens que colocassem sob melhor imagem as autoridades alemãs relativamente ao tratamento dos judeus.

O desenvolvimento da “Solução Final”, e o fanatismo com que foi perpetrada, não erradicaram da consciência dos seus agentes o facto de se tratar dum acto monstruoso. O genocídio foi realizado de forma sistemática e obsessiva, mas igualmente secreta e não assumida.

Uma das funções posteriores da propaganda alemã foi mesmo negar a sua ocorrência, tendo nos seus derradeiros anos investido imenso na perversa farsa de Theresienstadt, um alegado gueto modelo, situado numa antiga fortaleza da Checoslováquia, encenado para uma vistoria da Cruz Vermelha em 1944 , e cujos ocupantes seriam depois maioritariamente encaminhados para Auschwitz.

Olhar para a fotografia é, com frequência, olhar para uma complexa relação com as ideias de verdade e realidade. Olhar para as fotografias de Hugo Jaeger é um doloroso exemplo deste exercício.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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