A Ler
John Margolies, Reservatório de água em forma de pêssego, Gaffney, E.U.A., 1988

Os anos setenta do século passado não foram decerto um período de monotonia e marasmo.

E no que diz respeito à Fotografia, e em particular à fotografia de paisagem e à sua relação com a interferência humana, este axioma não é menos verdadeiro.

A meio da década ocorre a exposição New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape,  na George Eastman House ( em Rochester, cidade sede da Kodak), que marcaria um momento charneira na fotografia americana. E mundial.

Apresentando, e destacando, uma tendência de pendor mais conceptual, em nada desalinhada com o momento artístico da época, a exposição focou, com pequeno conjunto de autores ( Robert Adams, Lewis Baltz, Joe Deal, Frank Gohlke, Nicholas Nixon, John Schott, Stephen Shore, Henry Wessel Jr., e ainda o casal alemão Bernd e Hilla Becher), uma abordagem fotográfica que se afastava deliberadamente de duas linhas dominantes até então no género paisagístico. Por um lado, evitava a linhagem da fotografia dos grandes espaços intocados, da busca do sublime, que tendo uma longa história, tinha, sem dúvida, como nome maior o incontornável Ansel Adams. Por outro lado, afastava-se da tradição documental de fotografia dos grandes exemplos arquitectónicos e urbanos, também ela praticamente tão antiga quanto quanto a própria Fotografia.

A abordagem apresentada em  New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape é bastante diferente. Aos espaços naturais contrapõe as paisagem alteradas pela acção humana, e substituía preferencialmente como tema as grandes referências da arquitectura  por construções improvisadas ou meramente utilitárias. Ao excepcional e marcante,  contrapunha o vulgar, o dominante e  o incaracterístico.

As longas séries dedicadas a arquétipos construtivos do casal Becher, como as das torres/depósitos de água, são uma das mais influentes obras da Fotografia das últimas décadas.

Mas nessa alteração de paradigma estético na abordagem fotográfica à paisagem e à arquitectura, ocorrida na década de setenta,  nem sempre a exposição do indistinto é o factor central.

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Um pouco antes, nos anos sessenta, num momento incontornável na crítica e no pensamento arquitectónico, Robert Venturi publicara, em  Complexity and Contradiction in Architecture, uma defesa da complexidade e da variedade na arquitectura, associando as grandes referências a um vocabulário formal vernacular e popular. Em 1972, o trio constituído pelo mesmo Venturi, por Denise Scott Brown (a sua esposa) e por Steven Izenour  utilizaria a fotografia como um instrumento fundamental no seu manifesto A Significance for A&P Parking Lots or Learning from Las Vegas, cinco anos mais tarde ampliado e reformulado para  Learning from Las Vegas: the Forgotten Symbolism of Architectural Form, onde seria assaltado o gosto arquitectónico estabelecido invocando a riqueza da imagética popular de Las Vegas.
Mesmo em New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape, pode-se sentir em John Schott esse interesse por uma pujante corrente construtiva popular e comercial americana, que usa a construção como um quase suporte publicitário, com as suas emblemáticas imagens de motéis de formas miméticas e grandes letreiros luminosos.

Figura continuadora e central na exposição dessa riqueza simbólica das construções populares americanas foi o crítico arquitectónico, tornado fotógrafo, John Samuel Margolies (1940-2016). Em 1972, preocupado com a possibilidade de desaparecimento de muitos edifícios “ingénuos”, por pressão construtiva de grandes corporações que se sentiam institucionalmente  seguras com a morfologia redutora do modernismo, Margolies embarcou num longo projecto pessoal de recolha e catalogação desses edifícios marcantes, mas situados  à margem do gosto dominante no estabelecimento arquitectónico.

Com grande coerência formal e compositiva, Margolies utilizou uma abordagem quase asséptica e científica na abordagem do tema.  Enfatizava a forma dos edifícios, as estruturas eram geralmente isoladas na imagem, sem  presença humana, e fotografadas frontalmente, ou em  ângulo oblíquo para fornecer detalhes relevantes.
Se formalmente, e conceptualmente, as suas imagens são próximas das frias imagens do casal Beccher, cromaticamente e pelo seu enfoque no carácter único de cada construção, opõem-se-lhe de forma óbvia.
Não haverá talvez melhor contraponto às anónimas torres de abastecimento de água de Bernd e Hilla Becher que o reservatório de Gaffney registado por Margolies em 1988.

John Margolies, Reservatório de água em forma de pêssego, Gaffney, E.U.A., 1988

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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