A Ler
Joshua Benoliel, Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres ( Lisboa, Portugal, 1917 )

Se embarcarmos no exercício fugidio de fazer uma listagem de fotografias que captam com particular intensidade momentos chave da história portuguesa, verificamos decerto que Joshua Benoliel figura nela várias vezes.

E que, de entre as suas várias entradas, a imagem da partido do Corpo Expedicionário Português para a Flandres tem naturalmente destaque. Desde logo por, de imediato, ter havido a consciência da sua singularidade, tendo sido, com algum reenquadramento, a imagem de capa da “Illustração Portugueza” de Fevereiro de 1917.

Capa da “Illustração Portuguesa” de 12 de Fevereiro de 1917

E, depois, porque se trata de uma imagem que parece incorporar com particular intensidade os acontecimentos que precederam e que resultariam dessa participação portuguesa no quadro europeu da Primeira Guerra Mundial.

A entrada de Portugal na Grande Guerra não se deu verdadeiramente com a ida para as trincheiras francesa, nem mesmo com a declaração de Guerra por parte da Alemanha em Março de 1916, na sequência do apresamento de 72 navios alemães por solicitação da Grã-Bretanha. Desde 1914 que se vivia uma situação de conflito de facto em Moçambique e Angola, não tendo o envio de dezenas de milhar de militares para esses territórios enfrentado particular resistência nem na população, nem na hierarquia militar.

Porém, a entrada na frente europeia foi em tudo uma situação contrária.
Num país dividido profundamente dividido entre facções antagonistas republicanas e monárquicos, a guerra europeia foi essencialmente um projecto político do Partido Democrático de Afonso Costa.
Com esta participação, Costa ambicionava não só resolver questões externas ( afastar as colónias portuguesas duma possível cedência negocial entre britânicos e alemães, forçar um verdadeiro reconhecimento internacional da República Portuguesa e ainda afastar tentações anexionistas espanholas, um espectro que a aproximação Hispano-franco-britânica, nos Acordos de Cartagena de 1907, reavivara), como usar o conflito externo para enfrentar os problema internos, forçando uma desejada unidade nacional perante inimigo externo.
Se na frente externa, os objectivos só vaga e muito parcialmente foram atingidos, mais até por factos alheios à aventura portuguesa na Flandres, a verdade é que na frente interna a estratégia foi um verdadeiro desastre.

Entre os militares de carreira, melhores conhecedores da realidade das forças e equipamentos disponíveis, a ida para França nunca foi verdadeiramente popular, privilegiando claramente a frente africana, um teatro de operações mais familiar. E seriam os militares, através da revolução de 1917, com Sidónio Pais, quem sabotaria irremediavelmente a prevista renovação do contingente expedicionário português.
Num país sem uma tradição de verdadeiro serviço militar obrigatório (que, embora previsto na legislação republicana de 1911, estava longe de estar em funcionamento), o CEP contaria com uma percentagem reduzida de voluntários. O militantismo do Partido Democrático falhara em alimentar com homens o projecto de Afonso Costa, e o grosso do contingente  resultaria da mobilização extraordinária de efectivos.

Reunidos à pressa, aquartelados e treinados no chamado “Milagre de Tancos”, os soldados seriam enviados para França, onde seriam finalmente introduzidos à realidade da guerra “industrial” com nova instrução ministrada pelo Exército inglês. Os homens que se vêem na fotografia de Benoliel parecem carregar não só uma falta de entusiasmo, como um pessimismo, que o tempo viria a mostrar ser bem avisado.

Ver Também

Joshua Benoliel,
Embarque do Corpo Expedicionário Português para a Flandres,
Lisboa, Portugal,1917
[ Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa ]
Mais do que o carinho e o dever que a capa da “Illustração Portugueza” tenta destacar, o que perpassa pela imagem é sobretudo tristeza.

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

© 2019 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA. ALL RIGHTS RESERVED.

Ir para o topo