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Joshua Benoliel, Sinais feitos com sangue pela população numa parede por ocasião das eleições, Lisboa, Portugal 1908

Num mundo que se afigura muito complicado, há por vezes a ilusão interna de que Portugal é uma ilha. Que é imune aos ventos de tormenta, impermeável a populismos e violência. E esta convicção funda-se frequentemente na ladainha dos brandos costumes nacionais.

Porém, os brandos costumes que alimentam apaixonadas conversas, têm muito mais de construção do que de facto. E não é preciso recuar aos Descobrimentos, em que um código de honra medieval (e muita ambição) alimentaram uma expansão, e um império, construído com significativas doses de artilharia e força. Recue-se apenas cento e poucos anos, e temos o “progenitor” do fotojornalismo português, Joshua Benoliel, a retratar um país em que se mata com demasiada frequência.

Joshua Benoliel, Sinais feitos com sangue pela população numa parede por ocasião das eleições, Lisboa, Portugal 1908
Joshua Benoliel, Sinais feitos com sangue pela população numa parede por ocasião das eleições, Lisboa, Portugal 1908

Em 1908, no mesmo ano em que se matou um rei e um príncipe herdeiro, promoveu-se uma tentativa de apaziguamento da situação política que levou ao regicídio. O chamado “Governo de Acalmação”, presidido por Ferreira do Amaral, anulou parte das medidas da “Ditadura de João Franco”, e realizou eleições a 5 de Abril, pouco mais de dois meses passados sobre a morte de D. Carlos. Nestas eleições de “Acalmação”, tumultos com populares no Largo de São Domingos, em Lisboa, causaram catorze mortos e cerca de cem feridos.

Benoliel, nesses tempos de câmaras pouco dadas a registos de acção, captura o rescaldo dos confrontos. Fotografa, não o caos, mas as marcas que o evidenciam.

Diz-se que o desconhecimento da História nos leva a repeti-la.

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Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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