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Leslie Jones, Galinha a chocar (Boston, E.U.A., cerca de 1954)

Leslie Jones, Galinha a chocar (Boston, E.U.A., cerca de 1954)

No mundo da fotografia, e do fotojornalismo, há naturalmente os grandes nomes,  e há os “carregadores de piano”, profissionais medianos que desempenham com competência q.b. o serviço rotineiro e diário. Há também outras gradações, dos fotógrafos brilhantes injustamente desconhecidos ao incompetente com relações, passando pelo preferido do momento nestes tempos de jornalismo de internet — o amador ocasional, agora dotado de smartphone, que está providencialmente no sitio certo, no momento certo.


O americano Leslie Ronald Jones (1886 – 1967) , ou mais simplesmente Leslie Jones, não foi certamente um dos da primeira categoria. Não consta das grandes obras, não pertence ao cânone fotográfico, nem fez parte das redacções de referência ou das grandes agências.

E, para Leslie, isso nem era um assunto. Criado num orfanato, foi educado para ser operário. E foi-o durante bastante tempo. Aprendeu a fotografar enquanto se tornava operário especializado na criação de matrizes para a produção de moldes de fundição e, durante bastante tempo, acumulou a actividade de fotógrafo freelancer com a sua ocupação principal. Só o acidente industrial que lhe mutilaria dois dedos da mão esquerda acabaria por tornar inevitável a passagem a fotógrafo profissional, tendo acabado por entrar para o quadro do Boston Herald-Traveler, com o qual colaborava já anteriormente. Mas, quando questionado acerca da sua profissão, tendia a definir-se como camera-man, como operador de câmara, e não como fotógrafo. Tendia a ver-se, assim, como um homem que manobrava uma máquina, um operário da fotografia. E, no Boston Herald, tendia a ser um dos que cobria as pequenas coisas, as banalidades, as curiosidades e as mundanidades de  Boston e do Massachusetts.

Os seus auto-retratos são aliás exemplos da ausência de uma ânsia de exposição do ego, imagens sem pompa, frequentemente em situações bem-humoradas, por vezes mesmo apalhaçadas.

E é esse pendor para o humor, para uma visão despretensiosa da realidade, para descoberta da ausência de sentido, que o afasta da categoria dos “carregadores de piano”, a que decerto poderá ser remetido com alguma ligeireza. E que, muito provavelmente, até não lhe desagradaria.

Olhando-se para o espólio de Leslie Jones, disponibilizado na internet pela Boston Public Library,  por entre os milhares de imagens duma prática que se esperaria algo estéril, da cobertura de acidentes automóveis e acontecimentos desportivos, passando por curiosidades agrícolas e eventos sociais, emergem com frequência fotografias com assinalável gosto pelo caricato, pelo surreal e pelo cómico inesperado.

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Leslie Jones, não era um operário indistinto de linha de montagem, manobrava a câmara fotográfica em função dum olhar bastante particular sobre o mundo. Um olhar sem a gravitas de muitos dos grandes do ofício, é certo, mas sem dúvida pessoal, notável e divertido, próximo do de figura posteriores como Elliott Erwitt e Richard Kalvar.

Leslie Jones,
Galinha a chocar,
Boston, E.U.A., cerca de 1954
[ Boston Public Library ]

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

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