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Mathew Brady – Samuel Morse (E.U.A., 1866)

Mathew Brady – Samuel Morse (E.U.A., 1866)

Observa-se o retrato de Samuel Morse, septuagenário, e recorre-nos a ideia de se estar perante um general americano da guerra civil. Apesar de objectivamente falsa e até um pouco tortuosa, a associação estranhamente não é totalmente despiciente.
É falsa, desde logo, porque Morse não foi um militar. E dos retratos de generais mais emblemáticos desse conflito, apenas o do derrotado Robert E. Lee se aproxima da sua grisalha figura. Outro ponto contra ainda, é verificação de que a exibição ostensiva de medalhas não faz parte da iconografia e da mentalidade castrense dos americanos dessa época. Dir-se-ia que prevaleciam ainda os valores puritanos e austeros dos pioneiros.

Mathew Brady,
Samuel Morse,
E.U.A., 1866
[ Biblioteca do congresso dos Estados Unidos }
Mas imagem é contemporânea da contenda, que terminara um ano antes, e a postura é similar à de muitos retratos das figuras militares que a travaram. Quem fotografa Samuel Morse é Mathew Brady, um seu antigo aluno de pintura e que com ele aprendera a dominar o difícil processo da daguerreotípia antes de transitar para método do colódio húmido. E Brady é tão-somente o grande fotógrafo da guerra civil americana, o homem que, pessoalmente ou através de colaboradores, fez do registo do conflito uma missão, e um empreendimento de tal forma intenso que quase o levou à ruína financeira.

Esta aproximação icónica de uma imagem de Morse à galeria de generais, na esteira da vitória da União, revela-se tortuosa pela natureza da figura do inventor (em tempos, também pintor e fotógrafo). O telégrafo que inventara revelara-se instrumental e, a par do comboio, outra novidade dessa guerra, ajudara muito o Norte Industrial a responder rapidamente a um Sul muito mais limitado em recursos técnicos. Mas Morse, que geograficamente é um homem da União, um nova-iorquino, é igualmente uma personagem complexa. Na luta moral e ideológica que antecedera a guerra, as posições de Morse políticas estão muito mais alinhadas com o Sul. Defendera a escravatura como uma forma natural de organização de poder, de autoridade e de propriedade.

O verdadeiro nexo desta associação reside, por um lado, na já referida coincidência temporal e imagética (e no autor da fotografia), e por outro, no facto da imagem encerrar um discurso sobre a guerra pessoal de Morse e a sua vitória. Morse apresenta-se como um vencedor da disputa de longos anos pelo reconhecimento da sua autoria e propriedade intelectual sobre o telégrafo. A instalação do telégrafo, e a sua difusão mundial, fora um feito que resultara de duras disputas de financiamento, de viagens de demonstração e de pressões diplomáticas. Trabalhos que atingiram o almejado sucesso quando, em 1858, um grupo de potências europeias, em conjunto com o Império otomano, lhe atribuem um prémio de 400.000 francos franceses em reconhecimento do seu invento, e do uso deste nas suas redes nacionais.

Mas há algo de ambíguo na expressão, a barba cobre os lábios que parecem indicar um sorriso subtil, ao passo que os sobrolhos permanecem carregados.

O Samuel Morse que se faz fotografar expondo as medalhas de reconhecimento de países europeus (da Espanha à Rússia, da Dinamarca à Turquia, o arco está quase completo, apenas a Grã-Bretanha e o seu império se põem de fora) é o homem que cinco anos depois falecerá convicto que o seu próprio país não lhe fizera a devida justiça. Conseguira impor-se nos tribunais como o único e verdadeiro inventor do telégrafo electromagnético, mas o Supremo Tribunal de Justiça negara-lhe quaisquer direitos sobre futuras aplicações baseadas no código que ficaria para sempre associado ao seu nome. E apesar do reconhecimento judicial, nunca em vida o governo federal dos Estados Unidos reconheceu o politicamente controverso Samuel Finley Breese Morse,  figura algo trumpiana muito antes do dito, que não só defendera a Escravatura, como acreditava lutar contra uma conspiração dos países católicos europeus que estariam a encher a América de emigrantes para depois a controlar.

Num último reparo, e numa última surpresa,  observe-se que a segunda medalha da esquerda, no cimo, corresponde à Ordem honorífica portuguesa de Torre e Espada.

Mathew Brady,
Samuel Morse, 1866
(pormenor)

Desconhecendo-se a história que envolve a atribuição deste título a Morse, mas sabendo-se que Portugal não fez parte do rol de países que retribuiu monetariamente o inventor em 1858, e que onze anos antes o país optara pela solução do concorrente francês Bréguet (mais cara, mais complexa e menos fiável), é tentador arriscar a suposição de estarmos perante um caso vetusto duma irritante idiossincrasia portuguesa.

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Fala-se amiúde de “um traço psicológico nacional” que se centra numa espécie de ausência de frontalidade, no evitar publicamente defender uma posição e evidenciar-se, aquilo que o filósofo José Gil definiu como a não-inscrição, e que a maioria dos comuns designa por manha.
Mas podemos atrever-nos a apontar outra característica espantosa, diversa da primeira, mas que igualmente se insere na linha do comportamento manhoso. Aquilo que afigura ser um estranho talento das nossas “elites”, que conseguem pôr-se em bicos de pés e fazer-se aparecer na fotografia. Sem contribuir, sem esperar verdadeiramente pagar qualquer futuro envolvimento, conseguem colocar-se junto dos verdadeiros actores e associar-se a momentos e personalidades que esperam gloriosas.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

 

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