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Nina Leen, Lenços para primeiros-socorros (E.U.A., 1942-1945)

Num momento em que a realidade se dotou duma inequívoca estranheza, repara-se na  coincidência de fazer trinta anos que se estreou “Twin Peaks”, uma série televisiva que introduziu  o universo de David Lynch em milhões de lares insuspeitos de tais afinidades estéticas.

“Twin Peaks” apresentava-se nos seus primeiros minutos como uma série de características policiais, localizada numa pequena, pacata e “normal” cidade  do Norte dos Estados Unidos, e a pretexto deste chamariz, corrente na produção americana, arrastou milhões para uma deriva galopante em direcção ao estranho e ao anormal.

Este mecanismo de introduzir uma envolvente familiar e de a fazer caminhar para  lugares obscuros e temidos era, e ainda é, típico do “processo” de David Lynch.  A normalidade é a camada superficial de onde a cada momento pode irromper o estranho, o monstruoso e o irracional.

E não é um mecanismo exclusivo do realizador, nem do cinema e da televisão. Não é difícil pensar em fotógrafos que souberam proceder a esse exercício de subtilmente destilar da realidade uma estranheza que está lá, que apenas espera para irromper. Diane Arbus será logo um dos nomes que muitos recordarão neste desafio.

Mas uma outra fotógrafa, menos conhecida, fê-lo longamente, entrando de fininho em milhares de lares. Um pouco como a série de Lynch, mas sem o seu estrondo.

Nina Leen , uma fotógrafa que,  colaborando longamente com a popular revista LIFE , tinha como “marca de água” a capacidade de pegar nos assuntos secundários, nas curiosidades, nas histórias de felicidade banal que lhe eram normalmente atribuídos e deles extrair uma assinalável tensão e uma vaga e penetrante surpresa.

Pode-se especular que,  sendo uma apátrida nascida na Rússia, e que passara por vários pousos antes chegar aos Estados Unidos, teria a perspicácia dos estranhos, detectando o invulgar no que, para os seus pares, não seria mais que o familiar e o superficial. E pode-se louvar, sem dúvida, essa sua capacidade de o ter feito durante mais de trinta anos, sem que o “radar” realista verdadeiramente a detectasse.

Nina Leen, Lenços para primeiros-socorros, E.U.A., 1942-1945

 

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Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

 

 

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