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Photographia Guedes (Henrique Guedes de Oliveira), Ruínas de um castelo, Portugal, 1910-1920

Há um muito interessante equívoco entre a presunção colectiva dum conhecimento e a real consciência dos factos presumidos.
Em Portugal há uma geral e segura ideia dum país com larga história que se consubstancia nos restos materiais desse passado.
Mas a pitoresca imagem de um país de vilas e aldeias abrilhantado por castelos de torres e ameias,  e por puras igrejas, góticas e românicas, de paredes lisas de pedra , é em muito grande medida, quando não mesmo totalmente, uma construção.
Na verdade, quando a artilharia tornou obsoleta a configuração de painéis altos amuralhados das fortificações medievais, a esmagadora maioria dessas construções entrou em rápido abandono, substituídas por outras, mais baixas,  em menor número, de configuração estrelada e com muros oblíquos, muito mais efectivas contra a nova realidade militar (A praça-forte de Almeida será um bom exemplo dessa mudança de paradigma).
Esse abandono traduziu-se numa decadência e ruína progressivas, agravadas pelo facto de muitos poderosos, e mesmo a população mais pobre, encararem, com grande sentido prático e económico, essas edificações de uso e propósito perdido como uma acessível fonte de materiais de construção. Muitas das vilas e cidades portuguesas cresceram ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, canibalizando os seus castelos e muralhas.

Henrique Guedes de Oliveira, fotógrafo da cidade do porto no início do século, deixou-nos o retrato dessa realidade anterior à popularização da ideia de Património e, sobretudo, à intensa campanha de reconstrução dos monumentos nacionais do Estado Novo.
São dele, inclusivé, alguns retratos e fotografias da acção de figuras pioneiras na defesa do património edificado e arquelógico como Francisco Manuel Alves, o “Abade de Baçal”,  ou o arqueólogo e etnógrafo José Leite de Vasconcelos.

Photographia Guedes – Henrique Guedes de Oliveira, Ruínas de um castelo, Portugal, 1910-1920 [ Arquivo Municipal do Porto ]
Na imagem acima, é visível a real situação de inúmeros castelos nesse período e perpassa por ela uma sensação de “Faroeste”, sem grande lei e sem grande ordem.

A campanha de reconstrução do Estado Novo viria a ser imponente e esmagadora. Mas seria sobretudo uma campanha política e de discurso nacionalista. Visava impor “lei e ordem”, recuperando um passado glorioso e heróico, legitimando simbolicamente o novo poder em contraposição com a ruína e a “anarquia” da Primeira República ( ruína e anarquia que eram, em boa medida, a continuação dum século XIX conturbado).

Os seus objectivos não eram verdadeiramente científicos. A ânsia de obter uma pureza medieval acabou por mutilar muito do maneirismo e barroco portugueses, e a configuração imposta em muitos dos edifícios era descolada da sua realidade histórica. Era muito mais ficcional que real.

E não eram também particularmente coerentes. No mesmo período em que se edificavam torres “medievais”, com materiais modernos, destruíam-se troços significativos do Aqueduto das Águas Livres, por exemplo.

Mas seriam eficazes. Poucos têm hoje noção do carácter alterado, parcialmente inventado, e relativamente recente, dos castelos, mosteiros e igrejas que povoam o imaginário patrimonial nacional.

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Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro

 

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