A Ler
Jato de tinta de carbono – parte 1

O laboratório preto-e-branco, mesmo depois desses últimos anos, ainda é um meio relativamente barato de produzir cópias e provas com permanência. Uma impressão em pigmento mineral é comparativamente mais cara e injustificável principalmente quando se trata de uma experimentação despretensiosa ou de provas cotidianas para editar um trabalho. Pesam contra as inkjets a diluição do investimento que é lenta e a durabilidade do equipamento que pode ser curta com uso inconstante. O laboratório por sua vez ocupa mais espaço e consome mais tempo, mas uma vez montado pode funcionar por décadas com papéis e químicos (se suas imagens estiverem registradas em negativos).

Era um desejo antigo poder fazer provas dos meus arquivos digitais e dos meus scans de negativos com a praticidade do digital e o custo e a permanência da cópia molhada.

Fui atrás então de descobrir quais eram os gargalos desse problema e se haveriam soluções para eles. A durabilidade das impressoras inkjet esbarram no entupimento das cabeças de impressão e na obsolescência dos drivers e dos sistemas operacionais que suportam determinados modelos. O investimento é ainda mais alto dependendo da largura do papel que se pretende imprimir e também porque a tinta é cara. Se gasta tinta para imprimir, para limpar a cabeça de impressão e para manter a cabeça de impressão com tinta fresca. Além disso, existe a questão do marketing, a tinta é uma parte lucrativa desse negócio e os fabricantes de impressoras lutam a todo custo para controlar quais tintas podem ser usadas nas impressoras a fim de proteger seus lucros que provém de impressoras já vendidas.

Bulk Ink

Para pesquisar, eu costumava abrir o Google e pesquisar palavras chave tais como: refillable cartridge, bulk ink, non-oem ink. Assim eu via o que havia de novidades. Se você o fizer, é provável que um novo mundo se apresente a você, se ainda não o conhece. Você vai encontrar produtos que tem o intuito de baratear a impressão inkjet e expandir suas possibilidades.

Esse conjuntos de materiais e acessórios é uma enorme confusão e decifrá-lo é um desafio. Se misturam ai as tintas a base de corante sem marca definida cuja função é baratear ao máximo a impressão inkjet, as tintas a base de corante embaladas por empresas que oferecem cartuchos de impressão alternativos, as tintas a base de pigmento (tanto minerais como sintéticos) oferecidas em diversos patamares de qualidade e preço. Além disso há um enorme sortimento de cartuchos que podem ser enchidos novamente, há os que vem com um chip que precisará ser trocado, há os que vem com um chip que faz um autoreset, existem mangueiras, seringas, tanques externos, kits completos, uma parafernália e imensos tutoriais. A essência de grande parte desses materiais e equipamentos é deslocar o reservatório de tinta para o lado de fora da impressora com a ajuda de mangueiras que se conectam a cartuchos modificados, garantindo assim a liberdade de introduzir outras tintas na impressora e assim driblar as limitações que os fabricantes criam em suas impressoras.

Ainda surgem também kits e tutoriais específicos para desentupir impressoras, existem blogs sobre modelos específicos de impressoras que causaram muitas dores de cabeça ao redor do mundo. E por fim existem aqueles tutoriais de como fazer suas próprias tintas monocromáticas. Alguns desses tutoriais falam de tintas a base de carbono, um pigmento mineral estável e barato, que podem ser usadas nas impressoras com o auxilio dos tais acessórios e materiais. As tintas a base de carbono ainda oferecem menor risco de entupimentos na impressora, ou seja, ajudam na questão da permanência das cópias e na durabilidade do equipamento.

Decifrar esse novo mundo é aproximá-lo um pouco da experiência do laboratório p&b onde fazemos ajustes no químico para alterar o contraste, usamos uma viragem a sépia ou fazemos um rebaixamento, o processo se torna mais manual e o interior da impressora fica menos misterioso.

A minha história

A história que eu hei de contar é composta por quase todas as facetas desse mundo. É a história de uma impressora que dava uma dor de cabeça danada, ela vivia entupindo e toda vez que entupia o dono dela via seu dinheiro ir embora nas cópias em que faltavam cores, na tinta caríssima que ele usava para a limpeza dos canais entupidos. Quanto mais limpava, mais entupia. Esse modelo incomodava tanta gente que muitos escreveram sobre essas impressoras na internet, cada um tentando entender porque os problemas se tornavam cada vez piores, ao invés de melhorar a cada limpeza. Nessa impressora, dos onze canais de tinta, dois não desentupiam mais, assim ela foi parar no lixo. (#1)

Eu já tinha lido sobre as possibilidades de criar uma tinta à base de carbono e sabia que uma impressora nessas condições poderia servir a esse propósito. E foi assim que a história com a Epson 4900 começou.

No caso dessa impressora os cartuchos de tinta ficam colocados na frente da impressora, mangueiras levam cada tinta a um feixe de outras mangueiras que juntas vão até a cabeça de impressão perfazendo uma enorme alça. Dentro da cabeça, cada mangueira encontra um pequeno dispositivo que funciona como filtro (para deter quaisquer coagulações) e que impede a passagem de bolhas de ar. Depois do filtro a tinta está na cabeça e vai percorrer canais finíssimos até ser expulsa em uma micro-gota que encontrará o papel (#2).

Avaliando uma impressora para conversão

Sendo a impressora fisicamente grande e as mangueiras longas, a tinta se move lentamente pelas mangueiras e mesmo após uma troca de cartuchos é razoável supor que a tinta do cartucho anterior ainda possa passar meses dentro da impressora até a tinta mais fresca ser capaz de expulsá-la (se isso de fato vier a ocorrer). Dentro das mangueiras a tinta acaba não sendo agitada periodicamente. A vedação do cartucho contra a impressora também é importante, para previnir a entrada excessiva de ar no sistema toda vez que o cartucho for removido, agitado e devolvido ao seu lugar. Existem tutoriais para drenar tinta antiga das mangueiras, para trocar os filtros quando esse já não deixam mais passar tinta na quantidade suficiente para alimentar a cabeça. Observei o feixe de mangueiras que levava tinta até a cabeça dessa 4900 e percebi dois canais com grandes bolhas de ar, chegando até 5cm de mangueira completamente sem tinta, enfim, uma situação nada animadora.

Essa primeira análise da impressora é bem importante para saber quais os possíveis problemas e soluções, determinar assim a viabilidade da recuperação. Além das mangueiras com ar, vi também as datas de validade dos cartuchos, o que me fez supor que alguns ali eram muito pouco usados e estavam parados há muito tempo, deveria evitar usar aqueles canais mais tarde. Fiz alguns testes da cabeça, mas nenhuma limpeza, já tinha lido que as limpezas deterioram a cabeça ainda mais. Analisei também a capacidade ainda presente no tanque de descarte, onde a tinta da limpeza vai parar.

A impressora ainda tinha 8 canais funcionando, era aceitável supor que ela funcionaria para esse projeto (eu precisaria na pior das hipóteses de 3 canais bons). A próxima etapa então seria encher a impressora com um líquido de limpeza que seria capaz de remover toda a tinta ainda presente nos canais que ainda funcionavam, limpando assim pigmentos coloridos, coagulações e bolhas de ar.

Lista de compras

Comecei então a pesquisar cartuchos recarregáveis, tanques de descarte, resetters, software de manutenção, uma máquina virtual para rodar esse software em Windows XP, seringas, garrafas PET, papel toalha os componentes do líquido de limpeza.

Encontrei os cartuchos recarregáveis pelo Ali Express, era um modelo que tinha mais capacidade de tinta que o Epson, 300ml ao invés de 220ml, tinha chips que faziam auto-reset, eram 10 cartuchos enormes, uma caixa bem grande para o kit todo. Kit veio da China e completo custou metade do preço de um cartucho Epson na época. O resetter do tanque de descarte e um tanque extra vieram da China também.

Ver Também

A troca da tinta pelo líquido no caso de uma impressora com tantas mangueiras se dá pela função “ink charge”. Uma bomba de vácuo aspira o volume de tinta das mangueiras através da cabeça para o tanque de descarte, até as mangueiras estarem preenchidas com líquido novo direto do cartucho. No caso dessa impressora, o “ink charge” é feito exclusivamente pelo software de manutenção que não é distribuido publicamente. No caso da Epson 4900, como as limpezas deterioravam muito a cabeça de impressão, se difundiu o uso de “ink charges” para jogar fora a tinta parada nas mangueiras. Apesar dessa prática descartar muito mais tinta que uma limpeza, muitas vezes o resultado era mais duradouro (em situações extremas, usuários dessas impressoras usavam o “ink charge” para encher a impressora de líquido de limpeza e depois voltavam a instalar cartuchos Epson com tinta mais nova). Logo, esse software circulava na comunidade e um usuário de um fórum fez a gentileza de compartilhar comigo para a limpeza dessa impressora. Tinha Windows XP com a ajuda do Parallels num Macbook branquinho antigo para usar o scanner Pakon e essa instalação acabou servindo.

O líquido de limpeza é uma mistura de água destilada, glicerina e agentes umectantes comuns no laboratório p&b. A fórmula que eu usei foi a desenvolvida pelo Paul Roark, chamada C6b, uma base genérica para misturar tintas de inkjet que pode ser usada também como líquido de limpeza. Ela pode se misturar com tintas Epson e com tintas a base de carbono, tornando-a um bom líquido de transição, já que tintas Epson e tintas a base de carbono não devem se misturar.

A primeira limpeza

Mesmo sem instruções detalhadas, consegui usar o software de manutenção e carregar líquido de limpeza pelas mangueiras, pude conferir o resultado visualmente e após a primeira “ink charge” alguns canais já mostravam cores esmaecidas no “nozzle check”. O canal preto ficou sem mudança alguma, provavelmente havia morrido ou a válvula de seleção de “glossy” ou “matte” estava entupida. Segui adiante e fiz um segundo “ink charge”, as cores sumiram quase todas. Esse é um momento importante para avaliar cada canal, o tempo que levou para limpá-lo e poder escolher os melhores canais da impressora para usar após a conversão. Outros canais, mais problemáticos ficarão com líquido de limpeza permanentemente no cartucho, já que a impressora regularmente ejeta um pouco de tinta para manter a cabeça desentupida, mas não serão usados na impressão.

Já tinha contado aqui que essa série de posts era minha intenção, agora farei uma pausa e no próximo texto conto como foi a seleção da tinta que usei, como fiz as diferentes diluições e como foi a configuração inicial para começar a usar essa impressora com essa tinta.

 

 

Notas:

#1: Como vocês hão de perceber, para explorar esse tutoriais sobre fazer suas próprias tintas, a impressora tem que ser Epson. Dos quatro grandes nomes para os quais é fácil achar cartuchos recarregáveis, a Epson e Brother são as únicas que utilizam o sistema piezo (um elemento controlado eletronicamente se expande e aumenta a pressão no líquido produzindo a gota que é expelida em direção ao papel). A tecnologia da Canon e HP é o sistema bubblejet (um elemento eletrônico esquenta a tinta para produzir uma micro bolha que expulsa a tinta pelo canal da cabeça em direção ao papel). Fazer uma tinta que não acumule no elemento que esquenta e assim evite entupir a cabeça dificulta muito essa exploração, nesse caso eu sugiro conhecer o trabalho da Precision Colors e suas tintas para Canon. Quanto a Brother, ainda não vi nenhum modelo que seja suportado pelo software que é utilizado para reinterpretar o conteúdo dos cartuchos e mediar isso com o computador e o programa sendo usado para imprimir a imagem.

#2: https://en.wikipedia.org/wiki/Inkjet_printing

© 2019 EFECETERA - O "EFE" É DE FOTOGRAFIA. ALL RIGHTS RESERVED.

Ir para o topo