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Jato de tinta de carbono – parte 2

Jato de tinta de carbono – parte 2

Quando terminei a primeira parte desse relato, já tinha a impressora cheia de líquido de limpeza, a aguardar a nova tinta de carbono que ela iria usar.

Faça sua própria tinta

Antes mesmo de decidir misturar tinta a base de carbono, acabei tropeçando em alguns tutoriais interessantes de gente que fez diversas diluições diferentes de tintas pretas (Epson Matte Black, Inktec Black pigment ink, etc). Algumas dessas são também a base de carbono, outras apenas um pigmento sintético preto ainda mais barato. Esses conjuntos de diluições, que o pessoal chama de inkset, servem para criar um degradê do preto ao cinza claro e tem o intuito de melhorar a gradação das cópias monocromáticas.

O princípio é o mesmo das impressoras que usam as tintas K (black), LK (light black) e LLK (lighter light black). Quanto mais tons diferentes, mais fácil para a impressora criar uma gradação suave na cópia p&b e assim reproduzir o tom contínuo das cópias produzidas no ampliador. Para os inksets que eu criei, usei seis tons da tinta original: 100%, 30%, 18%, 9%, 6% e 2%. Seis tons provavelmente é muito, cheguei a testar apenas 4 tons e constatei que é quase impossível distinguir as cópias. A única vantagem de ter seis tons logo é ter mais tinta dentro da impressora e passar mais tempo sem ter que lidar com seringas e garrafinhas de líquido que potencialmente podem imundiciar a casa.



Diluição no quê? Uma característica interessante da base C6b é que ela pode diluir tanto pigmento carbono quanto tintas originais da Epson, então ela serve para uma gama enorme de possibilidades. A tinta a 100% é a tinta original pura, as outras são misturas da tinta com a base C6b. Até onde pude comprovar, seringas disponíveis nas farmácias oferecem precisão suficiente para repetir a formulação ao longo do tempo (presumindo que a mesma seringa é usada). Usei pequenas garrafas PET para armazenar as diluições prontas. Uma dica importante é sempre preparar a 2% primeiro, depois a de 6% e assim por diante para evitar que uma contaminação da seringa que possa afetar as diluições mais fraquinhas.

Inksets que você pode fazer existem vários, desde os mais fáceis com apenas a cor do pigmento original (matte black ou carbono que é ligeiramente sépia) somente para papéis matte até os mais complicados que podem ser usados em papéis glossy e com tintas extra com pigmentos minerais amarelo e ciano. Essas cores são aplicadas junto ao preto para deixar o preto mais quente ou mais frio, dependendo do gosto do fotógrafo. Já falei aqui antes da Inktec, uma tinta sul-coreana a base de pigmentos sintéticos, e um inkset com um preto matte Inktec pode ser muito barato. Imagino esse inkset como uma solução interessante para provas rápidas com tom neutro num papel matte mais em conta também.

Quando fiz meu primeiro inkset tentei seguir as instruções do inkset C6 no site do Paul Roark (que o concebeu) e comprei o carbono direto da loja MIS nos USA (esse carbono do kit C6 é um carbono puro desenvolvido para quem vai fazer inksets do tipo DIY). O carbono demorou muito tempo para chegar ao Brasil, nesse meio tempo quase comprei um litro de tinta preta Inktec, mas acabei achando um cartucho T511 antigo da Epson com 500ml de tinta preta. Isso estava num canto de uma loja de impressoras num cesto de itens quaisquer com um preço muito convidativo. Comprei pensando em usar aquela tinta enquanto não consegui resolver o recebimento do carbono, mas mais tarde me encantei pela cor (que provavelmente é de carbono também, mas mais quente). Usar uma tinta vencida há 10 anos me atraia mais também. Uma conta para se fazer é que 500ml de tinta pura podem virar 300ml de um inkset de seis tintas, ou seja 1800ml de tinta pronta para a impressora. E esse tanto de tinta equivale a muitos picolitros que podem se espalhar por muitos metros quadrados de papel.

QTR

Bom, já expliquei como salvar a impressora dos entupimentos e que temos que misturar a base de carbono com glicerina, umectantes e água destilada. Resta saber como explicar ao computador o seguinte: onde antes havia uma tinta ciano agora habita um cinza 9%, por exemplo.



Talvez vocês até saibam melhor do que eu o que é um rip, um software desenvolvido para organizar a fila de impressão e fazer a entrega dos arquivos a serem impressos para a impressora. Existe um rip específico voltado para imagens monocromáticas em impressoras de qualidade fotográfica chamado QuadTone RIP. Seu intuito era conseguir um melhor aproveitamento nas impressões p&b, permitindo ao usuário criar curvas e controlar a tonalização das cópias, coisas que não eram possíveis com drivers originais das Epson há 10 ou 15 anos. Esse rip se coloca entre os programas e a impressora, lado a lado com o driver da Epson como uma alternativa que pode ser escolhida nos diálogos de impressão. Ao escolher o QTR você passa a ter controle sobre quais tintas serão usadas e que curva será usada para controlar as altas e baixas luzes da cópia, atuando com a função equivalente ao perfil de cor na cópia colorida.

Se você produz cópias monocromáticas na sua impressora e ainda não experimentou QTR, fica aqui essa dica. Para trabalhar com um inkset feito em casa, esse tipo de software é essencial. Para conhecer melhor o QTR recomendo a leitura do tutorial do Amadou Diallo que consta do site oficial do QTR, é um tutorial simples que deixa clara a função da ferramenta e oferece quatro níveis de complexidade no seu uso. Para inksets feitos em casa as etapas são as mais complexas, não vou discutir aqui todas elas, vou falar mais da produção do descriptor file.

Arquivos de configuração

O descriptor file do QTR é um arquivo de texto que descreve o inkset sendo usado, é graças à informação presente ali que o driver consegue transpor os valores dos tons de cinza da imagem para a quantidade de tinta a base de carbono. Vou exemplificar aqui com o arquivo que eu criei em Dezembro de 2019 para a minha Epson 1400, a terceira impressora que eu converti.

#NOTES 1440 dpi, Uni-directional. GM 12-2019

PRINTER=Quad1400-MIS
N_OF_INKS=6
DEFAULT_INK_LIMIT=35

BOOST_K=
LIMIT_K=
LIMIT_C=
LIMIT_M=
LIMIT_Y=
LIMIT_LC=
LIMIT_LM=

N_OF_GRAY_PARTS=6

GRAY_HIGHLIGHT=8
GRAY_SHADOW=4

GRAY_INK_1=K
GRAY_VAL_1=100

GRAY_INK_2=C
GRAY_VAL_2=60

GRAY_INK_3=M
GRAY_VAL_3=42

GRAY_INK_4=LC
GRAY_VAL_4=15

GRAY_INK_5=LM
GRAY_VAL_5=7

GRAY_INK_6=Y
GRAY_VAL_6=3


GRAY_GAMMA=1
GRAY_CURVE=

LINEARIZE="98.83 96.78 95.05 91.42 86.44 82.62 78.16 71.79 67.08 64.65 61.11 56.33 51.41 46.8 43.36 40.13 38.19 33.32 28.65 22.14 18.78"

Ver Também


O primeiro elemento que se vê nesse arquivo é uma área de notas que graças ao símbolo # será ignorada pelo software. Essas notas servem para identificar o arquivo e te ajudar a lembrar quais configurações usou no diálogo de impressão para gerar os testes. Por exemplo, caso use outra configuração de dpi de impressão, o resultado pode ser diferente.

O segundo conjunto de informações contem a impressora usada, a quantidade de tintas usada e o limite default das tintas. Limite de tinta é a quantidade máxima de tinta que ainda torna a impressão mais escura. Depois de um certo ponto acrescer tinta não escurece a cópia, apenas gasta tinta. Cada combinação de papel e tinta tem seu limite. O tutorial presente no pacote QTR ajuda a descobrir esse limite, um artigo do Paul Roark ensina a fazer isso com um scanner ao invés de um densitômetro.

O terceiro conjunto de informações se refere aos limites de cada tinta, nesse caso, acabei optando por ficar apenas com o default, já que os individuais pareciam ser o mesmo. Essa tinta cobre o papel com muita facilidade, por isso um limite tão baixo com aproximadamente um terço da quantidade de tinta que a cabeça pode expelir.

O quarto bloco, o maior, relaciona o local de cada tinta e seu valor em relação à tinta mais escura, é aqui que as diferentes diluições ganham nome e um valor de cinza que é obtido através do mesmo tipo de teste que define os limites, com um pouco de matemática. Os tutoriais explicam essas etapas muito melhor do que eu jamais seria capaz.

Por fim, o quinto bloco contém a informação sobre a linearização da curva, que ainda é uma etapa mais avançada para ajudar ao software entender onde utilizar cada uma das tintas na hora de produzir degradês e passagens de um tom para outro com suavidade. A linearização pode ser omitida, já que apenas com limites bem definidos os sistemas costumam ser capazes de boas imagens.

Gerar esse arquivo e incluir as informações corretas é descrito nos tutoriais e instruções que acompanham o QTR. Tudo é feito das informações que são obtidas depois de imprimir alguns alvos como esse, que posteriormente são escaneados e medidos usando um software de retoque digital (Photoshop, Gimp, etc).



Vou parar por aqui e na próxima etapa mostro alguns exemplos de testes e cópias que eu produzi, além de um breve fluxo de trabalho para um sistema desses.

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