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Qual é o propósito de um retrato?

Qual é o propósito de um retrato?

A nossa proposta de hoje para o vídeo, dirige-se para uma análise de Jamie Windsor àquilo que é realmente um retrato.

Windsor trata a questão associada ao conteúdo e peso de verdade que cada retrato encerra, enfrentando mesmo a ideia preformada de que o retrato tende, ou sequer pretende, representar a verdade do assunto nele registado. Quão importante é transmitir a verdade, mais do que é importante fundar uma verdade? Mesmo que temporária, encenada, ou carregada de um propósito que pode ir desde a manifestação emocional à intenção política?

A complexidade de um ser humano, em comparação à de uma paisagem ou de um edifício, obriga a que o retrato seja uma criação, mais do que uma representação ou simples interpretação. Windsor não o menciona, mas a sensação que permanece é que depressa chegaríamos à assunção de que o retrato é em si uma entidade emancipada, que se define como “bom” ou “mau” – conceitos absolutamente discutíveis – pela força do vínculo emocional que é capaz de gerar.

Inevitavelmente, o vídeo usa “Migrant Mother”, de Dorothea Lange, cuja “factualidade” sabemos hoje ser bem diferente da anunciada em 1936, quando Lange e as circunstâncias político-sociais criaram a personagem de Florence Owens Thompson.

Florence, mãe de sete, 32 anos, fotografada em Nipono na Califórnia, em busca de um emprego ou de ajuda social para sustentar a sua família. O seu marido, à semelhança de tantos, havia perdido o emprego em 1931. Os pneus do carro, esses, vendidos para que a família pudesse subsistir. Esta foi a narrativa produzida. Os factos, contudo, eram um pouco distintos.

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A Resettlement Administration, agência criada por Roosevelt em 1935 e que era, basicamente, um programa de realojamento de famílias que lutavam contra a pobreza, em comunidades criadas pelo governo norte-americano, como qualquer programa político, carece de uma voz anunciadora. A propaganda é o brado preferido da política e a imagem emocionalmente robusta a sua tradutora mais eficaz. A fotografia que Lange produziu foi, sobretudo, um instrumento da política, eficaz, certeiro, provavelmente o estímulo da salvação de milhares de vidas. Ainda assim, uma encenação.

Mas quão errado é tudo isto? Quanta verdade esperamos afinal de um retrato? Quão errado é, no fundo, esperar que um retrato descreva a complexidade e a “alma” do assunto fotografado?

Caso o reprodutor não funcione, aqui fica o link para o vídeo no Youtube.

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